Uma pesquisa nacional do Portal AECweb e Sienge Comunidade, divulgada em 2024, revela que o preconceito ainda limita a atuação de mulheres na construção civil, apesar de avanços percebidos (leia mais abaixo).
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Pelo olhar de profissionais do setor ouvidas pelo g1, engenheiras, arquitetas e outras mulheres que atuam no ramo precisam de muito mais tempo de estudo e dedicação, em relação aos colegas homens, para conquistar posições de destaque na área. Elas também lidam com mais questionamentos externos.
Por outro lado, elas afirmam que o associativismo e o apoio entre as próprias mulheres têm fortalecido a presença feminina no setor. Pesquisa recente do IBGE também mostra que a construção é um dos três únicos grupos em que as mulheres receberam salários médios maiores que os dos homens (veja mais abaixo).
Neste domingo (23), Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, o g1 repercute a pesquisa, e traz à tona vivências daquelas que, em meio à sobrecarga, se destacaram no setor – seja no escritório, em canteiro de obras ou no empreendedorismo.
Sem errar
Segundo a engenheira civil Patricia Manske, coordenadora de projetos em uma empresa de Florianópolis, a sobrecarga sofrida pelas mulheres para conquistarem visibilidade no setor é evidente. “A gente não pode errar”, avalia.
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Ela é embaixadora de um grupo focado na união de mulheres da área, onde mensalmente há reuniões para falar sobre as vivências na área sob uma perspectiva feminina.
“A gente está sempre precisando ser 110% em tudo que a gente faz. Não basta ser bom, tem que ser muito bom”, afirma.
Paula Lunardelli, diretora executiva e fundadora da Prevision, plataforma criada para otimizar o planejamento das obras, garantindo também mais sustentabilidade a elas, complementa que “normalmente a mulher precisa entregar muito mais para ela conseguir ter aquele seu momento de visibilidade” .
“Falando de gestão, as mulheres que eu vi se desenvolverem, e eu conecto até com o meu caso, estudaram muito mais do que os homens. Elas se aprofundaram, se dedicaram, entregaram e conseguiram comprovar, através do seu trabalho e dos seus resultados, que elas tinham capacidade. Enquanto esse momento não vem, a jornada fica muito mais longa”, ressalta.
Lunardelli, que já esteve na diretoria da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), conta que até mesmo na faculdade, onde foi uma das três mulheres da turma a se formar em engenharia civil, precisou provar, mais do que seus colegas homens, que tinha competência para ocupar aquele espaço.
“Eu tinha passado para a segunda turma e me puxaram para a primeira. Então, na primeira prova, eu não tinha tido aula sobre o assunto. Lembro que eu tirei dois ou três na prova, eu acho, coisa que não acontecia no colégio, era a CDF. Eu fui pegar a nota, o professor virou para mim e falou ‘não sei nem por que faz engenharia'”, comenta.
“Eu estudei tanto para a segunda prova! Tirei 9,5 numa prova em que todo mundo tirou 6,7. Então, existia um preconceito e uma distância mesmo”, complementa.
No dia a dia, a executiva lida com várias empresas, e conta que também é difícil ver mulheres na gerência e diretoria delas. Para 67% dos entrevistados na pesquisa do Portal AECweb e Sienge Comunidade, é mais difícil para mulheres conseguirem posição de destaque no setor.
“Mas quando a gente vê, são mulheres incríveis, que estão tendo sensibilidade, que estão percebendo as pessoas de outra forma. E, com essa diferença de perfil, estão tendo resultados muitas vezes até mais relevantes”, assegura.

A pesquisa, que ouviu 619 profissionais entre os dias 20 de fevereiro e 6 de março de 2024, também revela que:
- Para 77% dos profissionais, o preconceito continua sendo um problema para as mulheres na construção civil.
- Mas, para 73%, mulheres estão conquistando mais espaço em posições de liderança.
- 23% das respondentes apontam que há menos de 5 mulheres trabalhando na mesma empresa.
- 21% indicam que há mais de 50 mulheres trabalhando na mesma empresa.
- 17% afirmam que há entre 5 e 10 mulheres trabalhando na mesma empresa.
- 41% das respondentes dizem que a minoria das posições de liderança é ocupada por mulheres.
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Elas se ajudam
A gerente de processos e qualidade Maria Natalia Villagran de Dios, que atua diretamente em canteiros de obras, fala que “precisou se provar muito” até chegar à posição de liderança que possui hoje. No entanto, ela acredita que gerações mais novas de engenheiras estão alcançando esses cargos com mais rapidez.
Isso ocorre, segundo ela, principalmente por causa do suporte e das oportunidades que mulheres líderes dão às novas profissionais do mercado.

A empresa onde ela atua se diferencia da maioria por ter 100% dos cargos de liderança ocupados por mulheres. Isso só ocorreu, segundo Natália, porque “permitiram que elas mostrassem a sua competência”.
“Eu acho que quanto mais as mulheres que estão na liderança abrirem espaço para as novas gerações, aí vamos conseguir de vez mudar o jogo. Mas eu acho que realmente tem que partir de cima, precisamos continuar nos unindo”, afirma.
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O que também fortalece, segundo ela, é o networking entre as profissionais. “A gente tem alguns grupos de mulheres na engenharia aqui em Santa Catarina, e eles são justamente para a gente continuar crescendo”.
A engenheira civil Patricia Mansk, de 34 anos, que coordena projetos em uma empresa de Florianópolis, afirma que já existem eventos internacionais destinados, por exemplo, a mulheres que, assim como ela, usam a tecnologia BIM (Building Information Modeling – Modelagem de Informações de Construção) no trabalho.
“A gente também está chegando mais nos lugares, se movimentando, uma fortalecendo a outra, uma puxando a outra. Estamos aparecendo mais onde antes não aparecíamos”.
Ela não vê distinção de gênero na empresa dela, onde assumiu o cargo de liderança há dois anos, mas afirma que o preconceito pode ser percebido em outros contextos do trabalho, como na contratação. Também na faculdade, ouviu de um professor que o curso de engenharia civil não era lugar de mulher.
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“Hoje existe um preconceito com os projetistas e engenheiros mais jovens de forma geral, não só mulheres. E aí quando você é jovem e mulher, naturalmente a gente passa por alguns constrangimentos no dia a dia. Mas aí a gente vai aprendendo a lidar”, afirma.
Na presidência de sindicato
A arquiteta e urbanista Ana Rita Vieira se tornou a primeira presidente mulher do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Joinville, cidade mais populosa de Santa Catarina, no início de junho.
Ela diz que chegar à presidência foi um caminho natural por ter sido introduzida à realidade ainda criança. Filha de engenheira civil, ela costumava ir com a mãe até as obras durante a infância. “Costumo dizer que eu nasci num canteiro de obras”, afirma.
“Estar hoje na presidência me deixa bastante lisonjeada porque é um reconhecimento dos pares, e consolida também a participação da mulher na construção civil. Acho que é um passo importante que o sindicato também demonstra ao me escolher como presidente”, comenta.
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Ela avalia que o setor tem abraçado mais mulheres nos últimos anos, assim como indica a pesquisa conduzida pelas duas iniciativas.
Para ela, diferente do que revela o estudo, no entanto, o principal preconceito relacionado à mulher na construção civil não está mais nos cargos de liderança, mas nos cargos operacionais do canteiro, que ainda costumam optar pelos serviços dos homens.
“Temos uma construção civil cada vez mais industrializada, que já tem maquinários avançados, que permitiria ter mulheres trabalhando como eletricistas, pintoras, azulejistas. Já não é um serviço tão pesado e a gente teria muito a ganhar, porque as mulheres são bastante detalhistas, a qualidade do serviço tenderia a melhorar. Fora que a gente tem um grande desafio do setor que é a falta de mão de obra”, afirma.
Empreendedorismo
Ao g1, as profissionais também falaram sobre uma percepção de crescimento de mulheres empreendendo na construção civil.
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A projetista Patricia Manske avalia que também por isso as mulheres têm se inserido mais no setor. “Às vezes, tu não consegues chegar lá por ‘N’ motivos. Acho que elas também resolvem dar a volta no sistema, dar o balão e empreender, e estar lá por mérito próprio”.
Envolvida com empreendedorismo e mentora de startups, Paula Lunardelli vê com bons olhos a possibilidade de criar uma empresa com a cultura que o sócio acredita. E isso é positivo também às mulheres.
“É muito difícil a mulher conseguir trabalhar sem propósito. A gente sempre tem um porquê maior por trás. Eu trouxe a Prevision no patamar que trouxe não por mim, e sim porque eu sabia que teria um impacto. Então nos dias mais difíceis de acordar, eu falava: ‘vou fazer isso porque eu vou transformar o setor que eu atuo'”.
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