Comer no Catar é uma tarefa complicada. Não digo isso porque sou um cara fresco na hora a alimentação. Sou taurino, gosto de absolutamente tudo que você possa imaginar. Esse é um relato pessoal, portanto, a sua experiência nos países árabes pode ser completamente diferente da minha.

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Agora, vamos às dificuldades. A comida por aqui é muito apimentada. A culinária do Catar recebe uma forte influência da gastronomia indiana. No bairro em que estamos hospedados há três semanas, todos os restaurantes da nossa rua são indianos. Portanto, uma dica de amigo: quando você ler a palavra “biryani”, saiba que você comerá algo muito apimentado.

O prato basicamente é feito com arroz, muito temperado – e apimentado – e carne (ou com frango). No primeiro restaurante que pedi, já fui disse logo que queria o mais fraco. Não teve jeito, não consegui terminar de comer. Na segunda tentativa, em outro restaurante, o mesmo fracasso. Desisti. O frango ou a carne biryani não são ruins, pelo contrário, são muito saborosos, só que infelizmente, vêm com muita pimenta. Em uma das tentativas minha garganta começou a fechar.

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No metrô, sentei-me ao lado de um casal indiano. O rapaz explicou que nem toda a comida indiana é apimentada.

– A comida indiana é uma mistura de várias partes do mundo. Existem sim pratos muito apimentados. Nós gostamos de comida temperada. Em algumas regiões você vai encontrar as comidas apimentadas, em outras comida muito doce, em outro lugar comida com muitos temperos. Enfim, existem pratos para todos os gostos – explicou o rapaz indiano.

A receptividade através da comida

Os cataris amam receber bem as pessoas. É algo cultural. Existem os majlis, tendas feitas em vários locais da cidade em que qualquer pessoa pode chegar, conversar com os locais e degustar de tâmaras, karak e outros lanches. O que mais gostei foi do Karak. Trata-se de um chá preto, com muitos temperos e leite. Eu não sabia, mas ele é servido após as refeições e é perfeito para tirar o gosto de pimenta da boca.

– Essa bebida tradicional ajuda a diminuir a sensação de ardência no final de uma refeição bem condimentada – explica Maria do Nascimento Garcia, professora de Cozinha Oriental no Senac de SC.

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Além do Karak, provei o Halwa Omani, um doce do Omã. Ele é feito de água de rosas, nozes, açafrão, cardamomo e açúcar. Foi uma experiência incrível, é possível sentir vários sabores ao mesmo tempo. É realmente muito doce, por isso, uma pequena porção já serve.

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Esse é o prato em que já vim conhecendo, afinal no Brasil ele é comum. O Shawarma por aqui é muito saboroso. É feito com picles, iogurte e frango (em alguns até com batata frita) e ele existe a cada esquina. É o lanche mais barato. Nos centros turísticos ele pode passar dos R$ 25. Mas na Doha de verdade, nos bairros onde moram a maioria dos imigrantes árabes, é possível pagar menos de R$ 10 por um.

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Outra curiosidade é que por aqui os frutos do mar são baratos. Peixes saem mais em conta que a carne, e o preço do camarão se equivale ao do frango. Na correria do dia a dia, é muito difícil fazer as três refeições todos os dias. Lanches sempre salvam a nossa pele.

E quando não queremos errar, ou quando o estômago já entrou em alerta máximo, vamos ao restaurante do centro de imprensa. Por R$ 80, o buffet é livre e oferece pratos de vários locais do mundo, além de bebida à vontade. Sempre saímos muito felizes quando conseguimos ir até lá.

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Temperos e condimentos como parte da cultura

A bacharel em Gastronomia e professora de Cozinha Oriental do Senac de Santa Catarina, Maria do Nascimento Garcia, explica que a culinária do Catar tem forte influência indiana e nômade beduína e por isso tem as especiarias como destaque.

– Os indianos e árabes usam os temperos e especiarias para curar e ou prevenir doenças, e, em todos pratos é usado a mistura de especiarias composta por cada família. Se trata de crença no que eles acreditam e querem receber. A mistura típica de especiarias é o bizar (cominho, cúrcuma, coentro, gengibre, canela e pimenta preta, além de loomi – ou limão negro). Ele agrega um leve sabor azedo à receita, muito parecido com a masala na Índia. A difração é a quantidade de especiarias usada em ambas – explica a professora.

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Para amenizar o sabor apimentado das receitas, Maria destaca o leite é um bom aliado:

– Os lácteos têm caseína, que envolve o ativo da pimenta responsável pela ardência – a capsaicina – e o neutraliza, fazendo com que nossas papilas gustativas não sintam a pimenta de maneira forte. Já para amenizar a ardência das especiarias, o mel, açúcar e o limão, até o pão [podem ser usados] pois toma conta do paladar diminuindo o desconforto para quem não está acostumado com esse tipo de culinária. Um exemplo é o Karak (chá com leite), geralmente servido após uma refeição. Essa bebida tradicional ajuda a diminuir a sensação de ardência no final de uma refeição bem condimentada – destaca.

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Apesar da presença de temperos comuns no Brasil como cominho, cúrcuma, coentro, gengibre, pimenta preta e canela, a população do Catar usa esses condimentos em quantidades bem maiores. E essa é uma das principais diferenças entre a alimentação nos dois países. As primeiras diferenças são os modos de preparo, aponta a especialista.

Maria pondera que a gastronomia asiática no geral usa muitos ensopados, e o arroz faz parte de todas as refeições, além da quantidade de especiarias usadas, deixando a comida muito condimentada. A alimentação é baseada geralmente em memórias afetivas e religião.

– Lá, os deuses fazem parte da cultura da gastronomia. Já no Brasil a comida é muito regional, é estadista. Os temperos são usados em moderação e de forma separada nas refeições. Em alguns estados, do Norte e Nordeste por exemplo, as pessoas recebem melhor a mistura de mais especiarias nas refeições. No Brasil, não existe uma mistura típica de especiarias que representa todo o país – pondera a professora.

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