A maternidade pode ser solitária e avassaladora. A psicóloga Juliana Baron ouviu relatos de mulheres e pensou que seria importante reunir essas histórias. Aproveitou as noites em claro, período em que tinha dificuldade para dormir por saber que precisava amamentar os filhos, e rascunhou o que seria o livro “Maternidade Possível: Sendo a mãe que eu posso ser”.
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Trata-se de uma escrita de mãe e não da profissional da psicologia que, à época, trabalhava com casais. A autora explica que não tem intenção de transformar a vida de ninguém, mas contribuir para que outras mães atravessem o momento com mais leveza por se reconhecerem na experiência de outra. Para Juliana, a idealização da maternidade perfeita sobrecarrega as mulheres.
— O título do livro é um convite para que cada uma possa encontrar a sua maternidade possível, aquela que acontece num equilíbrio dinâmico entre o que idealizamos antes de sermos mães e a realidade — conta Juliana.
Entre os temas estão puerpério, amamentação, rede de apoio e amadurecimento. São abordadas questões como as novas identidades e as transformações que um filho provoca. A autora diz encontrar muitas mulheres se perguntando por que ninguém as alertou sobre os desafios e as angústias da maternidade. Por isso, decidiu escrever sobre a beleza do ‘maternar’ e coisas que podemos dizer “não publicáveis e que fazem parte da nossa vida”, brinca.
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Apesar de ter sido escrito nos primeiros anos de vida dos filhos, hoje com nove e 14 anos, Juliana só fez a publicação (Livraria Insular) em 2023. Pelo jeito, enfrentou dois desafios comuns para mulheres que trabalham fora: falta de tempo e bloqueios. Hoje, considera que foi interessante esperar um pouco.
— Os meninos estão maiores e com a capacidade de lerem o que escrevi, e escrevo sobre ser mãe deles. Temos uma relação muito legal e eles incentivam muito meu trabalho — conta.
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Sem culpa não ter “paciência nenhuma”
Atualmente, o foco de Juliana está nos casais. No entanto, diz que sempre que possível acolhe mães, seja na vida ou no consultório — em especial, aquelas com filhos pequenos —, por saber como essa fase é desafiadora.
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— Hoje, com filhos maiores, vivo outros desafios, mas ao publicar o livro, reconectei com a mãe que eu fui. Sinto ser possível entender a vida como um todo, com suas dores e delícias, e com a maternidade não é diferente. Meu objetivo não é ditar regras ou dizer o que cada uma deve fazer, mas a partir dos meus textos, abraçar e convidar as mães a refletirem.
Quando o assunto é maternidade, muitas vezes se fala em amor incondicional, paciência infinita e abnegação completa. Para Juliana Baron, é preciso pensar que o amor pelos filhos também é atravessado por contextos e não é incondicional como gostaríamos que fosse.
— A paciência não é infinita, por isso, a importância de pensarmos em redes de apoio para cuidar das crianças. Não podemos naturalizar essa ideia de abnegação completa, pois sabemos que quando a mãe não olha para si e não está bem, algo precisa ser feito.
Divisão de tarefas ainda gera conflitos
Enquanto isso, a sociedade mantém sobre a mulher a responsabilidade do cuidado da casa, dos filhos e da família. Os tempos mudaram, mas a pressão social sobre as escolhas de maternidade e da carreira continua sendo um desafio.
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— Conquistamos muitos direitos nos últimos anos, mas ainda somos as grandes responsáveis pelo que agora tem nome: carga mental. E esse é um problema que não afeta só as dinâmicas da vida privada, mas o grande sistema capitalista. Não à toa, tem-se falado cada vez mais sobre a economia do cuidado que traz luz sobre o trabalho invisibilizado e não remunerado exercido na grande maioria por mulheres. Para Juliana, estamos diante de um problema complexo.
— Sejam as mulheres cuidadoras das suas próprias casas ou da casa de outras mulheres que precisam trabalhar, o fato é que amamos ou queremos ter filhos e amamos e queremos trabalhar. Não creio em uma resposta que resolva essa complexidade, mas ampliarmos as discussões é um passo importante, pois não há como voltar — diz.
Juliana considera importante destacar o papel do parceiro na relação. Para ela, não apenas na parte prática, mas também no que diz respeito à carga mental, independente se ele é o provedor:
— Parece óbvio que a casa e os filhos precisam ser responsabilidade de todos. Mas, atendendo casais, vejo que esse é um dos grandes pontos de conflitos nos relacionamentos, principalmente porque não temos referências de como gerenciar todas as demandas, já que na geração anterior os princípios norteadores eram diferentes e porque não temos recursos e modelos para negociarmos a divisão de tarefas como as relações atuais exigem, de forma saudável.
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A psicóloga reconhece que a maioria dos homens não foi ensinada a participar da vida doméstica ou a se engajar emocionalmente nas relações. Mas alerta que isso não pode ser justificativa para que eles permaneçam nos mesmos lugares. De acordo com Juliana, se as mulheres ganham muito com essa participação, eles também: ficam sem o peso de serem os grandes provedores e recebem o amor da conexão com os filhos.
Maio Furta-cor foca na saúde mental materna
Outro problema que impacta as mulheres é a grande chance da perda do emprego após a licença-maternidade. Em 2022, o IBGE divulgou a pesquisa Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. O levantamento, mostra que o número de nascimentos no Brasil teve queda de 13% em 2022 ante 2018.
Porém, apresentou alta entre as mulheres com mais de 40 anos, o que se alinha com outros dados que mostram o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho e o aumento da escolarização. Sinal de que a maternidade está sendo postergada em função dos estudos e da estabilidade no emprego. Isso ocorre, principalmente, entre autônomas ou donas dos seus próprios negócios.
— Conversando e atendendo muitas mães, vejo que esses dois desejos se tornaram um dilema. Como se a dedicação a um anulasse a possibilidade de se dedicar ao outro — observa
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Para a autora, hoje existe uma disparidade no mercado de trabalho no que se refere ao tratamento que é dado para as mulheres que se tornam mães e aos homens que viram pais. E o grande catalisador de mudanças passa pelas leis. Mas o avanço, necessariamente, vai ocorrer com políticas públicas que tornem a equidade de gênero uma realidade. Como por exemplo, a revisão do tempo da licença paternidade.
Por toda essa realidade, a saúde mental das mulheres está em risco. A psicóloga explica que maio é considerado o mês furta-cor, uma campanha sem fins lucrativos com o objetivo de sensibilizar
a população para a causa da saúde mental materna. O movimento surgiu pelo crescimento exponencial dos casos de depressão, ansiedade e suicídio entre as mães.
— Precisamos urgentemente falar mais sobre isso — avalia Juliana Baron, que também trabalha o tema em palestras e nas redes socais.
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