No artigo anterior, discorremos sobre os processos e possibilidades de maturação dos vinhos. Hoje, vamos falar sobre o envelhecimento, que é o período entre o engarrafamento e a abertura do vinho.
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A famosa frase “vinho bom é vinho velho” esconde mitos e verdades. Primeiro, porque a grande maioria dos vinhos produzidos no mundo hoje são elaborados para serem consumidos jovens, tendo uma vida média de quatro a seis anos, quando bem armazenados. E uma pequena fração de todos os vinhos produzidos possui características de evoluir com o envelhecimento. Segundo, porque a maioria dos rótulos produzidos não possui as qualidades necessárias para que envelheçam bem, ou seja, não possuem potencial de guarda, que são características específicas que possibilitam que, com o passar dos anos, o vinho evolua, enquanto reações físicas e químicas complexas se desenrolam em um processo lento, onde os taninos se tornam mais sedosos e os aromas ganham novas camadas, evoluindo em notas terciárias únicas. Os aromas frutados deixam de ser frescos e dão lugar a frutas secas ou cozidas, aromas de couro, terra úmida, folhas secas, tabaco, cogumelos, deixando a bebida com características muito diferentes de quando foi engarrafada.
Um vinho, para evoluir bem, deve ter boa estrutura. Caso contrário, o tempo mais contribuirá para sua oxidação e deterioração do que ao contrário. Para evoluir bem, o vinho, além de ter se originado de um terroir qualificado, uvas com qualidade e sanidade, técnicas de vinificação adequadas e cuidadosas, também precisa apresentar outras características importantes, como: acidez de média a alta, teor alcoólico médio a alto, quantidade de açúcar e taninos de qualidade. A combinação desses fatores, além da origem e safra, também são relevantes a serem consideradas.
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Um vinho tinto robusto e rico em taninos estruturados e de qualidade tende a se tornar um bom vinho envelhecido à medida que eles vão se decompondo ao longo do tempo, transmitindo menos a sensação de adstringência, ficando mais macios e sedosos, integrados e elegantes. O mesmo processo ocorre com a acidez, que deve ser marcante e, aos poucos, com o passar dos anos, ir perdendo sua potência, porém preservando sua estrutura e frescor ao longo do tempo. Vinhos envelhecidos, com raras exceções, são vinhos com média acidez. O teor alcoólico é imprescindível para dar longevidade ao vinho, pois atua como conservante natural, prolongando sua sanidade. Bons vinhos de guarda podem possuir grande quantidade de açúcar, em especial os doces e licorosos, como os vinhos do Porto ou de colheita tardia, que são alguns dos exemplares mais antigos do mundo que mantêm sua estrutura intacta, apresentando aromas, sabores e complexidade impressionantes.
A maioria dos vinhos brancos e rosés mostra suas melhores qualidades quando jovens, enquanto o frescor, os aromas de frutas, flores e herbáceos continuam vivos e exuberantes. Porém, quando os brancos possuem as características próprias para o envelhecimento, tornam-se exemplares exuberantes. Exemplares brancos longevos que valem o investimento: Chablis e Chardonnay da Borgonha; grandes Riesling da Alsácia (França) e Mosel e Rheingau (Alemanha); os Chenin Blanc do Vale do Loire (França) mostram uma resistência impressionante com o passar do tempo. Bordeaux, na França, possui os brancos longevos mais aclamados no mundo, o Sauternes, cujos vinhos doces são quase eternos, não sendo raro encontrar exemplares com mais de 100 anos espetaculares. Outro exemplo de brancos longevos que fazem parte dos mais antigos encontrados, ainda com seu estado de preservação intacto e impressionante complexidade aromática e gustativa, são os Vinhos da Madeira. Também não podemos esquecer do famoso Tokaji, o vinho húngaro, geralmente elaborado com as uvas Furmint.
Me conta, qual vinho mais longevo que você já bebeu? E qual foi sua impressão? Saúde!
Néa Silveira
@neasommeliere