A Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), ao fazer o balanço de final de ano, avaliou que 2024 foi muito bom para o setor, com crescimento de 6,8% até setembro, o dobro do nacional. Mas o presidente da entidade, Mario Cezar de Aguiar, manifesta preocupação com o cenário econômico nacional porque o governo federal segue com déficit nas contas, gastos crescentes e isso está resultando em juros e câmbio mais altos.
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Para Mario Cezar de Aguiar, a falta de ajuste nas contas públicas já é sentida na economia e deve levar a um ritmo menor de crescimento no ano que vem.
Outro desafio do setor, segundo ele, é a falta de trabalhadores qualificados para a indústria. O setor necessita requalificar 931 mil trabalhadores e formar 151 mil nos próximos anos. Em entrevista exclusiva para a coluna, o industrial também falou sobre infraestrutura, Bolsa Família, exportações e outros temas econômicos relevantes. Saiba mais a seguir:
Como foi o ano de 2024 para a indústria catarinense?
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– O ano de 2024 foi bom. A indústria catarinense cresceu mais do que o dobro da média brasileira. Até setembro, a nossa indústria cresceu 6,8% enquanto a brasileira avançou 3,4%. Então foi um ano realmente bom.
Mas isso não nos empolga porque a gente sabe da condução da política econômica que, no nosso entendimento, é equivocada. Esse crescimento, na nossa visão, é sem sustentação porque é muito baseado no incentivo ao consumo. Mas quando você olha os fundamentos da economia, ele não sustenta esse crescimento.
E o que são esses fundamentos? Existe um excesso de gasto público no Brasil que tem gerado déficit bastante significativo. A nossa preocupação é com o futuro. Nós nunca tivemos uma dívida pública tão elevada como temos hoje. E essa dívida pública insustentável vai ter que ser reduzida e ser paga com um crescimento econômico.
Somente zerar o déficit, chegar zero a zero, não é suficiente para baixar a dívida. Ela continua subindo porque tem um custo. Então, para começar a reduzir o custo da dívida ou equilibrar nesse patamar que está no Brasil, é preciso apresentar um superávit que os economistas calculam na ordem de 1,5%.
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Se estamos gerando déficits, nós estamos aumentando a dívida pública. Aí está o equívoco da política. O incremento momentâneo no consumo é insustentável porque ele vai ter uma consequência no futuro.
As consequências já aparecem?
– Nós já estamos sentindo essas consequências agora, que são o aumento da inflação, aumento da taxa de juros e o câmbio desvalorizado da maneira que está. É lógico que nós queremos uma taxa de juro menor. O juro elevado inibe o investimento, prejudica o crescimento. Mas juro elevado é consequência de uma política econômica equivocada. Não dá para baixar artificialmente os juros com decreto. O juro baixa naturalmente, se as bases da economia, se os fundamentos forem adequados.
Então, o ano que vem será mais difícil para a indústria?
Com essa taxa de juros, é evidente que inibe o consumo. O governo começa a emitir títulos da dívida pública. Isso puxa o juro, desvia dinheiro de investimento para aplicação financeira. Isso vai ter um impacto. No nosso entendimento, a economia está aquecida, mas é um movimento inercial, não para de um dia para outro.
O Banco Central aumentou juros agora em um ponto percentual e elevará de novo no ano que vem. A menos que haja uma sinalização do governo, com medidas que venham a reduzir o gasto público e zerar o déficit. Enquanto houver incremento do consumo sem lastro, teremos problemas.
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Com isso, a indústria vai estar mais cautelosa nos investimentos no ano que vem?
O crescimento é sustentado por investimentos. Mas quando o empresário olha a taxa de juro elevada, avalia que pode não investir, segurar um pouco. É uma coisa natural. Se você vai comprar produto numa loja e é sem juro, você compra. Mas se o juro é de 20%, vai achar caro. Taxa de juros elevada é inibidora de investimento.
Então, defendemos juros mais baixos, mas para isso, é preciso mexer nos fundamentos da economia e não forçando o Banco Central a baixar artificialmente. O juro é consequência. O princípio básico e não gastar mais do que se recebe.
O governo, na tentativa de alcançar o equilíbrio fiscal, está aumentando a arrecadação via novos impostos, novas taxas. E não está combatendo o grande mal da economia brasileira que é o alto custo da máquina pública, o gasto excessivo, o tamanho do estado, o número de ministério e as emendas parlamentares. Qualquer governo precisa trabalhar na redução de gastos, aumento da eficiência e aumento de investimentos.
Como o senhor avalia o cenário externo para a economia?
– É lógico que a guerra no Oriente Médio é preocupante. A guerra da Rússia com a Ucrânia se pensou que seria rápida e já vai completar três anos. Isso tudo tem consequências. Mexeu com insumos. A Ucrânia era grande fornecedora de cereais, e a Rússia, de gás natural. Houve todo um rearranjo que perturbou e que já está se equilibrando. Agora, a guerra comercial. Estados Unidos e China prometida por Donald Trump deve mexer nas cadeias produtivas globais.
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Todo esse cenário pode trazer graves dificuldades para o Brasil, como pode proporcionar oportunidades. Vai depender também da relação Brasil-EUA.
No momento, empresas estão com dificuldades para exportar por portos de SC. O que está acontecendo?
– Santa Catarina é o segundo estado que mais movimenta contêineres no país. Tivemos uma paralisação no Porto de Itajaí, o Porto de Navegantes está operando com apenas um berço porque está em reforma. Apesar disso, vem fazendo um esforço louvável, quase conseguindo o mesmo movimento de quando tinha dois berços.
Mas cresceu a movimentação nos nossos portos. Para se ter ideia, este ano, SC deve fechar com o mesmo número de 2023, cerca de US$ 11,7 bilhões até dezembro. Mas a importação cresceu muito. Deveremos chegar ao final do ano com US$ 34 bilhões. Cresceu muito.
O que tem acontecido é que as empresas estão com dificuldades para receber contêineres e para exportar via nossos portos, apesar de eles terem operações muito boas.
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Esses problemas são temporários porque os investimentos previstos para os portos de SC nos próximos anos vão elevar a capacidade de movimentação de contêineres de 2,5 milhões de contêineres ano para 7,7 milhões de contêineres por ano.
A Fiesc tem feito estudos frequentes sobre a situação da logística. Os projetos previstos são suficientes?
– Existem elementos que indicam que a nossa infraestrutura de transportes terá um planejamento mais detalhado, o que é um bom sinal. O governo do estado assinou o Plano Estadual de Logística e Transporte, temos mais investimentos nos portos, está sendo discutida a prorrogação da concessão da BR-101, estão sendo executados os projetos de uma rodovia paralela à BR-101.
Se a logística hoje é importante, ela será mais importante ainda com a reforma tributária porque com a reforma se encerram os incentivos fiscais. Santa Catarina é um estado atrativo porque tem uma política fiscal bem agressiva em termos de incentivos. Isso atraiu muitas empresas, investimentos. Isso vai desaparecer com a reforma tributária.
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Com a reforma tributária, que transfere a arrecadação da origem para o destino prejudica SC porque é um estado que produz mais do que consome. A vantagem de SC é ser um estado atrativo. O grande diferencial competitivo entre os estados será uma infraestrutura adequada. Hoje, somos a segunda indústria mais competitiva do Brasil. Se tivéssemos infraestrutura de transporte melhor, superaríamos São Paulo nesse indicador.
Um desafio da indústria de Santa Catarina é a falta de trabalhadores qualificados. Como o senhor vê a situação do momento e como podemos resolvê-la no futuro?
– Santa Catarina, como cresce, está em pleno emprego. A taxa de desemprego é de 2,8%. É um Estado organizado, temos a menor taxa de informalidade, que ainda é elevada, 26,8%, mas é a menor taxa de informalidade do Brasil. Falta mão de obra qualificada. Existe, por exemplo, um problema: a média no Sul é de 7,7% de jovens entre 18 e 28 anos, que poderia estar no mundo do trabalho, principalmente na área industrial, que nem trabalha nem estuda.
Temos que atrair essas pessoas, mostrar que eles podem constituir famílias, ser independentes, ter dignidade a partir do momento que eles adquirem um emprego. Mas para ter emprego hoje na indústria, há uma necessidade de mão de obra qualificada, porque hoje a indústria está muito mais tecnológica, não existe mais tanto trabalho braçal, você não tem mais aquele torno mecânico, você tem todo um CNC (Controle Numérico Computadorizado). Então a inovação está muito presente na indústria e a inovação exige pessoas qualificadas.
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O levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria) mostra que precisamos requalificar 931 mil trabalhadores na indústria em Santa Catarina e capacitar novos 151 mil. Essa é a grande dor de Santa Catarina. Numa pesquisa que foi feita pela CNI em Santa Catarina, a maior dor do industrial catarinense é a falta de mão de obra.
Como formar essas pessoas?
– O Senai, lógico, tem uma capacidade, mas não consegue resolver isso tudo sozinho. Ele está à disposição para qualificar as pessoas, mas, muitas vezes nós abrimos alguns cursos, porque nós só fazemos cursos demandados, mas as pessoas ou desistem ou não se matriculam. A própria empresa, às vezes, não deixa nem o funcionário terminar o curso e já chama para trabalhar, porque precisa de pessoas para trabalhar.
Então essa é uma grande dor aqui em Santa Catarina. Por isso nós estamos recebendo muitos venezuelanos, pessoas de outros Estados, do Norte e do Nordeste. Estamos com uma carência muito grande de trabalhadores.
E sobre o Bolsa Família, o senhor acredita que ela está atrapalhando?
– Em primeiro lugar, nós entendemos que o Bolsa Família é um programa especial e importante. O Bolsa Família tem que dar oportunidade, porque as pessoas, por uma razão ou outra, não têm acesso ao mercado de trabalho e têm alguma dificuldade. O que acontece é que o programa, na nossa opinião, precisa ser revisto.
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Hoje, existe só um comprometido no Bolsa Família, que é o governo dar o dinheiro. Não tem uma devolutiva de quem está recebendo. Quem recebe o auxílio poderia prestar serviço para o próprio estado, em meio período, ter o compromisso de buscar um emprego, porque não falta emprego.
Ah, mas não tem qualificação. O que não falta é local para ele se qualificar. Então, tem que ter uma devolutiva de quem recebe. Ou se qualificando, ou trabalhando, ou prestando serviço para quem dá o dinheiro para fazer um programa deste, ou seja, para a União, para o município.
Imagina uma família, um pai recebendo o Bolsa Família e dois, três filhos vendo o pai que não trabalha e recebe dinheiro de alguém, do estado. Bom, o estado não gera riqueza, ele recebe de quem está produzindo, então tem uma pessoa trabalhando para uma não receber. SC é o estado com menor taxa de Bolsa Família. Temos 0,26 bolsa para cada carteira assinada. No Maranhão, que tem a maior taxa, são 5,10 bolsas para cada carteira assinada.
Então, eu tenho cinco pessoas recebendo Bolsa Família e uma carteira assinada. Matematicamente não fecha, é um paradoxo. Um país que precisa de mão de obra ter um contingente de pessoas que não estão trabalhando, estão recebendo Bolsa Família.
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Se não tivesse emprego, tudo bem. Não tem emprego, então o governo está auxiliando, como foi, por exemplo, na pandemia. As pessoas ficaram sem uma fonte de renda, principalmente os autônomos que não tinham mercado, então o governo auxiliou. Era um plano emergencial. Mas o Bolsa Família não. A pessoa recebe e na prática – na teoria até tem – não tem nenhum comprometimento.
E ele fica recebendo o auxílio, vai recebendo, recebendo. Daí os filhos veem que o pai não trabalha. Que exemplo que um pai de família dá para os seus filhos quando não está inserido num bom trabalho? Não cai riqueza do céu. Dinheiro não dá em árvore. Alguém tem que produzir riqueza.
Não somos contra o Bolsa Família, mas temos que criar uma solução para isso. E aí a consequência em Santa Catarina: como nós temos a menor Bolsa Família do país, temos também a menor taxa de informalidade. É uma consequência.
Mas o Bolsa Família incrementa a informalidade. As pessoas não querem perder o benefício, então vão trabalhar em bico, não querem ser registrados. Aí dá acidente de trabalho, eles trabalham em uma condição que não é a condição ideal. É um problema.
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A Fiesc tem feito investimentos diferenciados em educação. O que o senhor destaca dessa área?
– Existe uma compreensão mundial de que a transformação se dá pela educação. Não adianta você pegar uma pessoa sem formação e querer colocá-la em um curso técnico. Como já falei, as empresas são muito tecnológicas hoje em dia.
Eu não lembro bem o número, mas cada ano mais que a pessoa tem em educação, em capacitação, ela tem aumento de salário. Pessoas com mais formação recebem mais.
A educação é o que transforma o país. E os exemplos estão aí na Coreia do Sul e outros países que investiram em educação.
Então, dentro do Sistema S, voltado para a indústria, nós temos toda uma formação educacional que vai desde o fundamental até a pós-graduação na engenharia. Nós formamos engenheiros especializados para a indústria.
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Oferecemos o ensino fundamental, o ensino médio. No ensino médio, nós estamos ofertando a possibilidade de o aluno já ter uma qualificação profissional. Ele recebe dois diplomas do ensino médio e uma qualificação profissional em que ele optou.
A nossa educação nas escolas do Sesi é de ótima qualidade, bilíngue. A nossa metodologia é consagrada mundialmente, que é a metodologia STEAM, que é o acrônimo (em inglês) de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática.
Os ossos cursos de qualificação profissional do Senai são todos demandados. Nós não temos os cursos na prateleira e saímos ofertando ao mercado. Nós somos demandados pelo mercado, entendemos qual é a necessidade e montamos o curso.
Estamos muito focados nessa questão de qualificar a mão de obra da indústria, mas entendemos que para qualificar uma mão de obra, tem que ter uma educação de base muito boa. Nós temos ótimos índices, com médias superiores, inclusive de escolas particulares.
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Outro tema importante, que está no dia a dia das indústrias, é o da sustentabilidade, da descarbonização. Como a indústria catarinense está nessa área?
– A indústria de Santa Catarina é uma indústria de vanguarda. O maior valor de dólares por tonelada exportado no Brasil é da indústria de SC porque nós não exportamos o insumo. Na grande maioria, exportamos produtos de valor agregado.
Então, a nossa indústria é de vanguarda. O principal destino são os Estados Unidos, o segundo principal destino é a Europa. E, logicamente, que hoje a questão do ESG não envolve só a sustentabilidade, mas também a governança é um tema bem forte e muito bem aplicado aqui nas nossas indústrias.
Como o senhor avalia a inovação da indústria catarinense?
– Repito o que eu disse: é uma indústria de vanguarda, é uma indústria que está à frente de outros Estados. Nós somos o Estado mais diversificado, temos indústria de ponta, então é surpreendente o que se vê na indústria catarinense. Para dar um exemplo, no caso da nossa indústria de alimentos, e aí eu entro em proteína animal, frango e suíno, a grande maioria dos insumos vem da Região Centro-Oeste.
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Ela perde em competitividade porque tem um insumo mais caro do que tem a indústria que está instalada no Paraná, por exemplo. Mas ela ganha pela produtividade, por agregação de valor naquilo que entrega. A nossa indústria é uma indústria de ponta.
Por que a Fiesc lançou o programa SC Day, voltado ao aumento das exportações?
– Lançamos o SC Day porque o estado já tem uma cultura de comércio internacional muito forte. E nós analisamos, por exemplo, o Chile, que foi o primeiro a sediar o SC Day. É um país que compra do mundo todo e produz muito pouco. Quando nós olhamos a qualidade e a competitividade dos produtos catarinenses, concluímos que eles ainda importam pouco do estado.
Então, fizemos uma ação em que levamos para esse evento mais de 20 empresas de referência de Santa Catarina. A WEG, a Aurora e a Duas Rodas, que já estão situadas lá, levamos ao evento para dizer: ‘essas empresas que estão aqui, que são fortes aqui, são do nosso estado’.
Isso porque quando se fala de Brasil, muitos entendem Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Santa Catarina, lógico, tem com o Chile uma proximidade turística. Mas quando se fala em termos de indústria, é São Paulo. E Santa Catarina é um polo industrial importante.
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