Embaixador da Unesco para Sustentabilidade e fundador da marca de moda internacional Osklen, o empresário Oskar Metsavaht defende uma postura forte do Brasil como economia verde no cenário internacional. Na opinião dele, entidades empresariais e governos deveriam fazer um projeto estratégico para o Brasil liderar a economia verde no mundo.
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Oskar Metsavaht tem defendido esse novo posicionamento do Brasil em eventos, entre os quais o ESG Summit Brazil, que teve edição em Florianópolis no fim de agosto, e em mais recentemente em São Paulo (dias 19 e 20 de novembro). Esse evento, idealizado pelo empresário catarinense Lucas Martins, terá uma ampla agenda em 2025 com edições pelo Brasil e exterior.
Com a experiência como embaixador da Unesco e no desenvolvimento de produtos sustentáveis de moda, Oskar Metsavaht se coloca à disposição para participar desse projeto de apoio a marcas brasileiras na busca de um protagonismo internacional.
– Temos que acreditar na capacidade do Brasil de desenvolver projetos econômicos potentes – diz ele, citando empresas como a Embraer e Petrobras.
Nascido em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Oskar Metsavaht é médico ortopedista, mas começou produzir roupas para aventuras no clima frio e acabou virando empresário de moda premium com design próprio e foco na natureza.
Atualmente, ele divide o tempo entre a gestão da Osklen, que agora tem como sócio o Grupo Dass, de Santa Catarina, e palestras e encontro com líderes nacionais e internacionais em que defende a economia verde brasileira. Saiba mais na entrevista a seguir:
O senhor tem defendido que o Brasil use o fato de ser um dos países líderes em sustentabilidade ambiental para fortalecer marcas no exterior. Pode explicar mais essa sua visão?
– Acredito que agora é a hora de nós vermos nossa competência empresarial, desde o agronegócio, desde as sementes plantadas, com as tecnologias super contemporâneas nossas, desenvolvidas pela Embrapa, por exemplo. Ver as competências nossas de uma Embraer, uma Petrobras, uma Eletrobras, de todos estes grandes grupos nossos. Temos que acreditar na capacidade do Brasil de desenvolver projetos econômicos potentes.
Se olharmos as últimas três décadas, ou na história toda do Brasil, veremos que começa com o país exportando pau-brasil e nossos recursos naturais há 500 anos, com as velas das nossas caravelas vazias, em branco, sendo substituídas depois por velas com as cores de Malta. Ou seja, o Brasil sempre exportou as commodities para agregar valor a marcas de fora do país.
O que significa isto? O valor intangível secundário e terciário, que é o de manufatura e depois de criação intelectual e criação artística, não existe porque nós exportamos só commodities, continuamos exportando só commodities. Nós somos um país que tem uma capacidade industrial em vários setores da economia, uma capacidade muito grande e potente, e isso até é parecido com outras economias, mas nós temos alguns diferenciais que são super contemporâneos. A riqueza da nossa biodiversidade, por exemplo.
O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo, que pode ser explorada em medicamentos, cosméticos, em indústria têxtil, pesqueira, em várias indústrias de várias competências. Além disso, temos uma grande capacidade empreendedora, uma sociedade diversa tecnicamente, culturalmente, que cria.
Gosto de dizer que o estilo de vida nosso é muito contemporâneo, muito desejado por várias outras culturas, porque nós somos bonitos, saudáveis, sensuais, alegres e sexys, quem não quer ser isso? Além disso, temos recursos naturais maravilhosos, ou seja, temos a capacidade de criar produtos e serviços de origem sustentável, com impacto social, capazes de melhorar a qualidade de vida do restante de 100 milhões de pessoas no Brasil, criando alimentos saudáveis, têxteis e outros materiais da nossa indústria de uma forma contemporânea e sustentável.
Temos a possibilidade de ser líderes com a nossa cultura da mesma forma como a Europa criou a percepção de luxo, de valor agregado, com sua competência de séculos da história da arte, da arquitetura, de design, de procurar fazer o bem-feito, o sofisticado, criou o luxo, as marcas na gastronomia, no cosmético, na moda, nos automóveis, e exporta para o mundo todo. Como os americanos com seu ‘American Dream’, com a sua potência de propaganda, de marketing, difundida desde os filmes de Hollywood, com a competência de exportar o estilo de vida midiaticamente.
Nós e outras culturas do mundo estamos sempre usando o estilo de consumo americano. Eles exportam e vendem sua cultura, marcas, produtos e serviços para o mundo inteiro. Na Europa é a mesma coisa. A China, hoje, também começa a criar suas marcas. Agora, imagine aonde o Brasil poderia chegar com todo o potencial super contemporâneo que possui, este da percepção de vida, recursos naturais, biodiversidade, um estilo de vida ligado à natureza, saudável, alegre, tudo que nós temos, valores tangíveis e intangíveis que criam um diferencial único, uma cultura só nossa, colorida, com uma economia verde.
O senhor acha que este seria o momento da era brasileira no mundo?
Acho que este é o momento da era brasileira. Nós estamos tendo a oportunidade, eu só acho que nós não estamos tendo a competência de fazer como os europeus, como os americanos, como os chineses souberam fazer, ou melhor, como os chineses estão começando a fazer. O Brasil tem condições de ser o líder na era da economia verde.
Como o Brasil pode se unir, se articular, e trabalhar para alcançar isso?
– Nestes últimos 30 anos, nesta abertura que o Brasil teve da nossa expressão cultural e da compreensão da riqueza da nossa biodiversidade surgiram vários projetos maravilhosos, grandes, tanto institucionais, quanto de governo, não governamentais, de empresas, de pesquisa acadêmicas, eventos, todos olhando para nossa biodiversidade, criando valor de impacto social e ambiental.
O Brasil vem desenvolvendo muitos projetos com grandes diferenciais, mas costumo dizer que nossas ideias são muito verticalizadas, tem a ideia, o projeto, a cadeia de produção, de fornecimento. Nós temos bons projetos, não só empresariais. Nós temos vários, e vários não conectados, e isso nos deixa vulneráveis porque é difícil dar novos passos.
Nós estamos falando de empreender um projeto de estado, de nação, de cultura de nação, de somar a nossa cultura à nossa força econômica e criar nossas marcas locais, nós não conseguimos fazer isso individualmente, nenhuma marca, nenhuma empresa nossa de grande potência consegue.
Agora, veja, quantas poucas marcas internacionais nós temos, marcas em todos os segmentos da economia, temos pouquíssima coisa, apesar de sermos reconhecidos como a região do planeta que tem a biodiversidade mais rica e por possuir a população com estilo de vida mais saudável.
Unindo estas duas coisas nós representamos a vida, temos esta commodity intangível, e continuamos vendendo commodities minerais e agrícolas, algumas que são de competência só nossa, vendendo para que outras indústrias, outras empresas, outras marcas do mundo coloquem o seu processo intelectual criativo e ainda suas marcas.
Se nós não tivéssemos capacidade intelectual e criativa, ou de manufatura de transformação, tudo bem, seríamos como há séculos, só exportadores de commodities. Mas, ao longo principalmente deste último século e do início deste em que estamos, fomos muito além disto.
Poderia ser um projeto de Estado?
Exato, um projeto de Estado. O nosso executivo tem que propor e facilitar isto, mas o projeto tem que ser de Estado. A nossa sociedade empreendedora, a sociedade econômica, que nos organiza, tem que enxergar isso, fazer um único projeto que envolva toda essa riqueza diversa que nós temos, fragilizada por ser pequenos projetos, e olhar com uma única visão.
Eu gosto de pegar o exemplo da Nasa e da chegada do homem à lua. Imaginem quando começou a se falar na ideia de levar o homem à lua, o quanto era algo utópico, romântico e ingênuo, vamos dizer assim. O estado americano se juntou a instituições de pesquisa acadêmicas, empresariais, governo, sociedade, eles criaram a marca, um potencial, e conseguiram levar o homem à lua. Era um projeto de Estado, equivalente a outros projetos de estado de sucesso no mundo, mas o da Nasa eu gosto porque era colocar o homem na lua, algo muito improvável.
Poderia citar, também, o das navegações, o projeto de cruzar os grandes oceanos. Nós estamos em um momento agora de poder ser a vida do planeta. Olha só o país, essa região nossa, e vale destacar que quando eu falo sobre ser a vida do planeta, é igual à analogia que eu fiz com a ida do homem à lua. Temos que saber criar um projeto de branding do país.
Isso é uma coisa que eu gostaria de fazer. Eu tive uma experiência ainda pequeno e sozinho de ter internacionalizado uma marca brasileira (a Osklen) sem capital, mas levando a sério as nossas competências criativas, de diversidade, projetos socioambientais e de recursos naturais.
O que eu fiz foi empacotar esse combo com qualidade de produto, autoria e originalidade criativa, ou seja, não é cópia de fora porque não dá para exportar produtos copiados, tem que ser original, sustentável, ter qualidade de nível internacional, tentar ter a qualidade como os italianos têm, que os chineses estão tendo.
O Brasil tinha uma qualidade sempre média porque só vendia commodities baratas para fora. O Brasil tinha muito mais indústrias do que a China, a China deu a volta e o Brasil perdeu isso e não soube aplicar nem o valor intelectual, criativo e de manufatura dos produtos.
O senhor pode falar um pouco mais sobre sua experiência com a Osklen?
– A Osklen me deu muita experiência porque eu inaugurei lojas no Japão, na Europa. Uma coisa é vender produtos para lá e eles serem revendidos. Mas quando você tem uma loja é igual a fincar uma bandeira. Ela abre 365 dias do ano e você está exposto à cultura local, à crítica local, a passar por testes de originalidade, qualidade, conceito interessante, isto tudo tem por trás da moda e de outros mercados.
O que agregava surpresa e originalidade à marca era apresentar a cultura brasileira de uma forma contemporânea, moderna, que é o que eu faço, eu interpreto, que significa nossa cultura. E os produtos ganham ainda mais valor quando se olha por trás das criações, se são sustentáveis, aí faz o ‘clique’, o diferencial, porque as outras culturas fazem isso tudo, tem qualidade, originalidade, um bom conceito, levam suas culturas à frente de suas marcas.
O que eu fiz foi colocar em prática tudo o que eu falo. Levei isso para fora com duas coisas diferentes dos outros, nós somos sustentáveis e somos brasileiros, temos aquele espírito brasileiro, o nosso intangível, apreciado pelo mundo inteiro. Esses valores tangíveis e intangíveis juntos, eles dão uma potência muito grande. Eles são tão fáceis de conceituar, de apresentar, de agregar nos nossos produtos e serviços e, principalmente, de levar projeto de comunicação de branding do país para fora.
Para os projetos que vemos de Embratur, de Apex e de várias outras coisas nossas, falta uma certa competência. É competência política deles, claro, mas não têm o olhar para o mundo, para o Brasil, um olhar de fora, universal, para identificar no que somos diferentes, como agregamos para as outras culturas, e saber vender isso de uma forma potente, mostrar nossos grandes diferenciais para o mundo.
Como está a Osklen no exterior, atualmente?
– A Alpargatas foi dona da Osklen durante oito anos. Eles fecharam as lojas no exterior. Agora, com o grupo Dass estamos redesenhando. Eu voltei para a direção da empresa. Sempre fui diretor criativo, desde que eu fundei a empresa, mas quando foi com a Alpargatas eu continuei como diretor criativo, mas a estratégia era feita pela Alpargatas, que não entende de moda e sustentabilidade, entende de indústria e robótica.
Com o grupo Dass eu voltei a ter 50% da empresa e uma gestão compartilhada, com a minha direção executiva. É um alinhamento muito bom. Eu tenho o maior prazer de ser sócio assim porque é uma empresa de cultura familiar, a Dass é admirável. Temos jovens, nossos filhos, participando de uma transição para ter também as gerações novas no comando criativo e estratégico.
As empresas estão todas se esforçando para tornar seus produtos cada vez mais sustentáveis. O que o senhor destaca da Osklen nessa área?
– No meu ponto de visa, mais importante do que o material que usamos é o quanto, ao longo destes 30 anos, eu e minhas equipes – no início era só eu, depois junto ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável que eu fundei há 20 anos – o quanto nós nos dedicamos às transformações das cadeias produtivas. Não existiam materiais sustentáveis para usarmos na indústria da moda. Criamos, estimulamos e fomentamos vários. Viramos referência de credibilidade e sustentabilidade.
Na última década, indústrias mais novas, pequenos projetos de pesquisa acadêmica, de cooperativas, começaram a nos procurar em busca do nosso conhecimento para trabalhar uma cadeia sustentável de gestão, uma cadeia de aprimoramento estético e de qualidade, e ter o selo Osklen Instituto de qualidade em originalidade, estética e sustentável.
Temos uma lista enorme de materiais, de projetos que deram certos, outros que não deram certo, outros que estão em fase de maturação. Este mês uma empresa de Portugal, que faz fio de cortiça retirada de rolhas, nos procurou para lançar aqui antes mesmo de lançar em Portugal. Então, o importante para a Osklen não é ter materiais sustentáveis, é ela desenvolver a cadeia na indústria da moda nacional e internacional.
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