Comentaristas da imprensa escrita-falada-televisada esportiva adoram levar, dos gramados para o ofício diário, termos criados pela boleiragem. Coisas como “agredir a bola”, “jogador agudo”, “marcação alta”, “acertar a bochecha da bola”, “atacar o espaço vazio”, “jogar nas entrelinhas”, “time reativo”, “bola fatiada”, “linha sustentada”, “extremos desequilibrantes”, “portador da bola” e muitas outras aberrações.

Continua depois da publicidade

Receba notícias de Santa Catarina pelo WhatsApp

Mais recentemente uma dessas muletas vem ganhando força: o “saber sofrer”. Trocando em miúdos: “saber sofrer” é quando um time joga na retranca, leva sufoco do rival e consegue suportar a pressão. Com isso, às vezes empata e algumas poucas vezes até vence.

Saber sofrer, está aí uma coisa que nunca aprendi na vida.

Mansão suspensa atrai atenção de milionários em praia de SC

Continua depois da publicidade

Não soube sofrer quando Elis Regina nos deixou. Eu tinha 21 anos. Era um janeiro calorento, começo das férias de 1982, estávamos no aprazível balneário de Araruama, no Rio de Janeiro. Abruptamente, a notícia da morte de minha cantora preferida. Elis tinha 36 anos. O sofrimento e o choro provocados por aquela despedida seguem comigo até hoje.

Não soube sofrer quando Ayrton Senna partiu. Eu tinha 33 anos. As manhãs dominicais normalmente eram preenchidas por nosso ídolo, tricampeão mundial da Fórmula-1, destemido, arrojado, desassombrado. De repente, o acidente no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, em 1994. Ele tinha 34 anos. As imagens daquele domingo, de muita dor e muito trabalho, serão sempre perturbadoras.

Grávidas dão à luz antes de chegar a hospital em dia de partos de emergência em SC

Não soube sofrer quando Tim Lopes foi assassinado. Eu tinha 41 anos. Tim era um jornalista brilhante, amigo espirituoso e humanista. Desapareceu quando fazia uma reportagem numa comunidade carente do Rio de Janeiro. Foi pego, julgado, condenado e executado por bandidos em junho de 2002. Ele tinha 51 anos. Até hoje sinto saudade da troca de ideias e da expressiva gargalhada do vascaíno Tim.

No fim das contas jamais aprendi a saber sofrer. Talvez nem queira mais aprender a sofrer. Talvez seja a hora de me consultar com técnicos, jogadores e comentaristas de futebol.

Continua depois da publicidade

Leia outras colunas de César Seabra

Parodiando Elis, que cantava “Aprendendo a Jogar”, eu diria: “Vivendo e aprendendo a sofrer/Vivendo e aprendendo a sofrer/Nem sempre ganhando/Nem sempre perdendo/Mas aprendendo a sofrer”.

Pra refletir:

“Uma morte bonita honra a vida inteira”.

Petrarca, filósofo

“O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário”.

Sêneca, filósfoso

“Só conhecemos aqueles que nos fazem sofrer”.

Goethe, escritor

“Fazer sofrer é a única maneira de se enganar”.

Albert Camus, escritor

“A hora do encontro é também despedida/A plataforma desta estação é a vida”.

Milton Nascimento e Fernando Brant, compositores

“É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado”.

Guimarães Rosa, escritor

“A bondade que nasce do cansaço de sofrer é um horror pior do que o sofrimento”.

Cesare Pavese, escritor

Leia também:

Sete sucos para acelerar o metabolismo e ajudar a emagrecer

Barbárie de Queimadas: o que aconteceu no crime tema do Linha Direta

Saiba para que serve o bigode do cachorro