No começo de minha carreira profissional, em 1983, acompanhei de perto o movimento pelas Diretas Já. Era a reta final do regime militar, as ruas do país foram tomadas por jovens que sonhavam votar pela primeira vez para presidente. No Congresso, a emenda Dante de Oliveira foi rejeitada e grande parte da sociedade viu-se frustrada. Era preciso paciência, esperar um pouco mais, o dia estava por chegar.

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Em 5 de outubro de 1988, já na equipe de Política do jornal “O Globo”, era um dos responsáveis pela cobertura da Constituição que estava para nascer. Ela foi promulgada numa madrugada e o deputado Ulysses Guimarães discursou emocionado: “Hoje a Nação mudou (…) A Constituição certamente não é perfeita (…) Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca (…) Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade (…)”.

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Pouco mais de um ano depois o país iria, enfim, às urnas para escolher seu novo presidente. Perdoem o lugar comum, mas foi uma verdadeira festa da democracia. Vinte e dois candidatos — entre eles Collor, Lula, Brizola, Covas, Maluf, Ulysses, Freire, Caiado, Gabeira, Enéas, Aureliano, Afif. No primeiro turno, uma campanha leve e divertida, os candidatos e seus jingles inesquecíveis. No segundo turno, ofensas, xingamentos, denuncismos. Os bons livros de História estão aí para contar o que aconteceu.

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 Muitos anos de trabalho e muitas eleições, manifestações, denúncias, escândalos e impeachments depois, chegamos a 2021. Ano em que pessoas (insufladas por arroubos autoritários e irresponsáveis de seu capitão) saem às ruas para pedir o fechamento do Congresso, a destituição de ministros e a invasão do Supremo Tribunal Federal, a retomada do voto impresso, o retorno do AI-5 (o ato mais perverso criado pela ditadura), a volta dos militares ao comando da nação.

Saem às ruas para defender o fantasma de um golpe (ou autogolpe), construir inimigos invisíveis, fortalecer a dinâmica do conflito, agarrar-se ao poder pela força, pôr as instituições na berlinda, atacar o nosso ainda jovem e frágil regime democrático.

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Os atos de Sete de Setembro levaram, sim, muita gente às ruas em várias capitais do país. Nada mais legítimo e saudável. Mas enquanto apoiavam um movimento autoritário e antidemocrático, pareciam esquecer as quase 600 mil mortes pela Covid-19, a inflação galopante, a crise hídrica, o preço da gasolina, os 14 milhões de desempregados, os brasileiros que não têm o que comer nem onde morar, a destruição da cultura, da educação, do meio ambiente.

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Esqueciam que este governo não sabe viver em harmonia, não respeita os contraditórios, não tem empatia com a dor e o sofrimento alheios, não joga o jogo jogado dentro de um estado democrático de direito. Esqueciam de seus trogloditas que usam as redes sociais para disseminar mentiras, agressões, injúrias e desinformações. 

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Esqueciam que este é um presidente que prega a adoração ao ódio em vez do amor, à ignorância em vez da ciência, à morte em vez do humanismo, às armas em vez da saúde e do feijão no prato. Esqueciam que este é um governo da destruição.

Pra refletir:

> Quatro frases de Marguerite Duras:

“A escrita pode ser definida como um fenômeno de leitura interior. Escrever é deixar-se levar pela escrita. É saber e não saber o que você vai escrever. Não acreditar que você sabe. É ter medo”.
“Escrever é também não falar,. É calar-se. É gritar sem fazer ruído”.
“Os jornalistas são os trabalhadores manuais, os operários da palavra. O jornalismo só pode ser literatura quando é apaixonado”.
“Se não se passou pela obrigação absoluta de obedecer ao desejo do corpo, isto é, se não se passou pela paixão, nada se pode fazer na vida”.

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