No próximo dia 23, sexta-feira, Pelé completará 80 anos. É possível dizer que, se fosse americano, o Rei do Futebol teria uma estátua em cada cidade dos Estados Unidos. Mas Pelé é brasileiro, nasceu num país que pouco valoriza seus ídolos, que pouco reverencia a imagem de seus grandes nomes, que muito debocha de seus talentos. Pelé nasceu num país de memória efêmera.
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Não vi Pelé jogar ao vivo. Ou melhor, posso ter visto e não lembro. Meu pai garante que me levou ao Maracanã, nos idos dos anos 60 do século passado, para assistir a um daqueles míticos Botafogo x Santos.
Eu era moleque. Não recordo. E dizer isso ao meu pai sempre soou como um crime. “Como pode não lembrar disso?”, ele pergunta. “Você viu o Rei e não recorda?”, ele insiste. Simplesmente não lembro. Sou um sujeito imperdoável.
Lembro, sim, das imagens de suas grandes jogadas, de seus lindos gols, dos golaços que deixou de fazer. Lembro do milésimo gol no dia 19 de novembro de 1969, quando ele enviou, emocionado, um recado muito sério: o país deveria cuidar de suas crianças. Foi ridicularizado pela abjeta elite deste brasil (com b minúsculo mesmo), a ditadura militar não deu a mínima – o resultado está aí, 50 anos depois.
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(Naquele 19 de novembro de 1969 nasceu a minha irmã Catia. A lenda diz que os médicos pararam o parto para ouvir o milésimo gol, sobre o Vasco. Meus pais não confirmam nem desmentem, deixam a lenda sobreviver. Catia teria vindo à luz somente depois que a bola estufou a rede do Maracanã.)
Lembro também do Pelé ministro dos Esportes, quando FHC era o presidente. Foram três anos de um Pelé desconfortável, de terno e gravata, no meio do mundo político. Percebi este incômodo bem de pertinho, quando o convidamos para fechar, em 1996, uma semana de palestras sobre a possível modernização do futebol e a garantia dos direitos trabalhistas dos atletas profissionais.
Sem saco e com paciência, o ministro Pelé respondia a perguntas enfadonhas. Até que alguém quebrou a pauta e mandou uma pergunta sobre futebol. Fez-se a luz, fez-se a alegria, fez-se a vida.
Os olhos de Pelé brilharam. O sorriso generoso e reparador abriu-se. Ele desandou a contar histórias divertidas, sobre companheiros e adversários. Lembrou partidas inesquecíveis. Desenhou com a gente, simples mortais, como havia feito alguns dos mais importantes gols de sua vida.
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Os assessores pressionavam, Pelé tinha que voltar para Brasília. Nós tínhamos que fechar um jornal. Ninguém queria ir embora. A noite chegou, o papo seguia animado. Pelé havia se transformado num menino. Nós, aparvalhados e estupefatos, ouvíamos as histórias de um rei de verdade.
Deste dia guardo a foto acima. Depois de horas e horas de conversa, ele posou com todos nós. Um rei e seus súditos – ávidos por guardar aquele momento para sempre, sedentos por manter as lembranças do dia em que ele transformou homens adultos em simples crianças.
Muito obrigado, Pelé.
Pobre de um país que tem memória curta.
Vida longa ao Rei!
Do estadista britânico Winston Churchil:
“Se Hitler invadisse o Inferno, eu cogitaria de uma aliança com o Demônio”.
Do escritor israelense Amós Oz:
“Quem nunca na vida, nem um livro, nem um filme, nem um quadro ou uma música o mudou de alguma forma – é uma pessoa desperdiçada”.
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Do escritor francês de origem argelina Albert Camus:
“A contradição é a seguinte: o homem recusa o mundo como ele é, sem desejar fugir dele. Na verdade, os homens agarram-se ao mundo e, em sua imensa maioria, não querem deixá-lo”.