Esta sexta-feira, 23 de outubro, completei sete meses em home office.

Quando a pandemia chegou, imaginava sofrer muito mais com a obrigação do isolamento social. Mas (ainda) tem sido uma experiência rica e muito trabalhosa – o dia fica realmente curto quando se juntam os afazeres domésticos aos profissionais. Já a quarentena e o confinamento foram rompidos, mesmo tomado de culpa, com viagens a São Paulo e ao Rio de Janeiro.

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Na capital paulista fui rever minha namorada. E da casa dela não saímos para quase nada – exceção aberta para escapadas necessárias com a Maggie. Na capital fluminense foram duas semanas dentro de casa, com algumas idas ao dentista. Nada de ver e abraçar meus pais, minha filha, meus irmãos, meus amigos. Distanciamento que corta, machuca, sangra o coração.

Mesmo sabendo que são as coisas mais corretas e honestas a se fazer – o manter a distância, o cuidar de quem se ama, o ouvir e respeitar a ciência, o torcer pela vitória da vida e pela eficácia da vacina -, sinto-me um palerma. Não sei o que é sentar num cinema há sete meses. Não sei o que é me reunir, profissional e afetivamente, há sete meses. Não sei o que é o almoço, num bom restaurante, há sete meses. Não sei o que é dar um mergulho, no mar que aprendi a amar, há sete meses. Não sei o que é entrar numa boa livraria há sete meses.

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Sinto-me um apalermado diante das imagens de tantos idiotas aglomerados em ruas, bares, praias, festas, shows de sertanejos. Nem podemos chamá-los de negacionistas, pois sequer sabem o que significa o negacionismo. São simplesmente idiotas amontoados, sem empatia, humanismo, solidariedade, sem respeito pela própria vida. A ignorância não é uma bênção.

Mas e daí, o que significa isso perto de 160 mil mortes provocadas pela Covid-19? O que significa isso diante de tantas dores e sofrimentos, de tantos sonhos partidos? O que significa isso ao ver tantos sepultamentos sem despedidas? Nada, literalmente nada. O importante é aglomerar e “causar”.

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Ok, nada que (ainda) devesse surpreender num país onde se diz que tudo é uma gripezinha, coisa de gayzistas frouxos, e que a vacina contra a doença não será obrigatória neste brasil com b minúsculo. (E, novidade, temos mais um ministro da Saúde desautorizado e publicamente humilhado pelo senhor presidente.)

Dia desses, o ex-presidente do Uruguai José Mujica disse: “No meu jardim há décadas não cultivo o ódio. Aprendi uma dura lição que a vida me impôs. O ódio acaba deixando as pessoas estúpidas”. Parece um recado enviado aos brasileiros.

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Aqui precisamos mais do que uma urgente e eficaz vacina contra o coronavírus. Precisamos, também, de um poderoso antídoto contra o vírus da boçalidade e da estupidez.

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De Santiago Amigorena, escritor argentino radicado em Paris:

“Nós somos o que nos tornamos. O que não significa de forma alguma que deixamos de ser o que fomos. A questão da identidade só faz sentido quando vista como uma questão sem resposta. Uma pergunta que você nunca deve parar de se perguntar”.

Da escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura:

“Se alguém pudesse nos olhar do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que andam apressadas, suadas e exaustas, e também veria suas almas, atrasadas e perdidas no caminho por não conseguirem acompanhar seus donos”.

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Do sambista Neguinho da Beija-Flor, em desabafo sobre o assassinato de seu neto durante uma operação policial:

“Negros já nascem suspeitos. Em negro, atiram primeiro para depois saber quem é”.

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