Itamar Vieira Junior é um baiano de 41 anos. De origem pobre, descendente de negros escravizados trazidos de Serra Leoa e da Nigéria e também de índios tupinambás, ele é geógrafo e há 15 anos trabalha no Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Neste ofício, conviveu com quilombolas, sem-terra, indígenas do interior do país. Parte disso Itamar aproveitou na tese de doutorado. Outra parte foi parar em “Torto Arado”, livro publicado pela editora Todavia em 2019 e que ganhou muitos prêmios no fatídico 2020.
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Itamar segue a tradição de grandes mestres. Na escola, aos 16 anos, começou a ler Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego. “Torto Arado” é uma saga sobre conflitos por terra, numa fazenda quilombola, na Chapada Diamantina. Esta comunidade conviveu, por várias gerações, com o horror, como mostra uma comovente parte do livro:
“O medo atravessou o tempo e fez parte de nossa história desde sempre. Era o medo de quem foi arrancado do seu chão. Medo de não resistir à travessia por mar e terra. Medo dos castigos, dos trabalhos, do sol escaldante, dos espíritos daquela gente. Medo de andar, medo de desagradar, medo de existir. Medo de que não gostassem de você, do que fazia, que não gostassem do seu cheiro, do seu cabelo, de sua cor. Que não gostassem de seus filhos, das cantigas, da nossa irmandade. Foi a nossa valência poder se adaptar, poder construir essa irmandade, mesmo sendo alvos da vigilância dos que queriam nos enfraquecer. Por isso espalhavam o medo”.

Com enorme senso de humanismo, Itamar constrói e conta as histórias das irmãs Bibiana e Belonísia, de Donana, Zeca Chapéu Grande, Salustiana, as gêmeas Crispina e Crispiniana, Domingas, Servó, Hermelina, Severo. O tempo passa, as relações mudam e se acirram, o clima pesa, a estiagem e a fome maltratam, a exploração e os preconceitos não arredam pé, a escravidão e as injustiças sociais batem à nossa porta.
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Um amigo me disse: “Um livro que todos os brasileiros deveriam ler”. Outro amigo foi além: “Um livro que deveria estar nos currículos escolares em todo o país”. “Torto Arado” já é um clássico da literatura brasileira.
Em suas 260 páginas, é uma poderosa aula de Brasil – este Brasil dividido, miserável, negacionista, racista, classista, machista, homofóbico, misógino, indiferente à pobreza e muito marcado por trabalho escravo em vários Estados.
Como diria o paraibano Chico César, “Torto Arado” é um livro para acordar os dormentes.
Outra obra-prima, esta de 1960, é “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus. Catadora de papel e moradora da primeira grande favela paulistana, esta mineira de Sacramento escreveu um referencial para entender questões sociais e culturais do país. Nascida por volta de 1914 e morta em 1997, ela deixou pensamentos fundamentais sobre o poder da educação:
1. Motivo para escrever: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia”.
2. Motivo para ler: “Para adquirirmos boas maneiras e formamos nosso caráter”.
Cida Pedrosa é do sertão pernambucano, mais precisamente de Bodocó. É dela “Solo para Vialejo” – eleito o livro do ano, na categoria poesia, pelo Prêmio Jabuti. O livro é um poema épico-lírico que acompanha uma viagem do litoral ao sertão, com muitas referências musicais. Mais do que isso, é um mergulho neste Brasil profundo que a ignorância não nos permite ver.
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