É com o recado a seguir que Fernanda Montenegro praticamente termina suas memórias “Prólogo, ato, epílogo”, lançadas recentemente pela editora Companhia das Letras: “Quando temos muitas certezas sobre o nosso modo de agir, em cena ou na vida, corremos o risco de ficarmos circunscritos a uma técnica que nos imobiliza naquele processo domado, dominado, que nos congela. É a ponte com o imprevisto, o improvável, o absurdo que, muitas vezes, nos leva a renascer”.

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O recado vem de uma jovem senhora de 90 anos – e inquieta. Através de suas lembranças Fernanda nos faz mergulhar na rica cultura de nosso país,   sempre em tempos de pouco dinheiro e muita conturbação política. Ela tem mais de 70 anos a serviço da dramaturgia, no teatro, no cinema e na televisão, tudo ao mesmo tempo agora. Portanto, afirma que esses anos devem ser triplicados. “Dei conta de mais de 200 e tantos anos de trabalhos ininterruptos. É a alegria e a condenação de um ofício”.

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Página por página Fernanda relata sua trajetória, sempre ao lado dos maiores artistas brasileiros. Da novela “Guerra dos sexos”, de 1983, relembra a inesquecível e divertida cena do café da manhã com o amigo Paulo Autran. Tudo improvisado, sem ensaio algum.

Do filme “Central do Brasil” conta que sua vida foi sacudida por um furacão. Com a interpretação de Dora, uma ex-professora descrente, cínica e ladra, disputou o Oscar de Melhor Atriz em 1999. “Nos 20 anos que se seguiram a essa filmagem, claramente o tema do roteiro continua vivo. Permanece a mesma realidade hostil, eternamente numa demagogia de promessas”, escreve Fernanda.

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Com o olhar politicamente penetrante, acrescenta: “Nessas décadas vividas vi – vimos – a chegada, sem pudor, de uma institucionalização da corrupção. Tornaram-na oficializada e nela todas as correntes políticas se contaminaram, sem exceção. Vamos para onde? Com quem? Tudo isso me faz pensar nas Doras que persistem pelo Brasil afora”.    

Desde as primeiras frases, quando Fernanda lembra como seus antepassados chegaram ao Brasil, “Prólogo, ato, epílogo” é uma obra-prima. Lê-se frase a frase com vontade de jamais chegar ao fim.

E vê-se no livro, todo o tempo, uma aula de vida generosa, decente, respeitável, lúcida, independente, resistente, criativa, íntegra, digna. “Sobreviver às contradições é fundamental – se quisermos a coexistência”, ela ensina. Por tudo isso: obrigado, Fernanda.

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