Dia desses lembrei de uma pesquisa publicada pelo The New York Times no começo do século 21. Ela revelava que boa parcela dos americanos não tinha passaporte, nem havia vontade de tirar o documento. Para eles, de acordo com a pesquisa, os Estados Unidos se bastam. Preferem fazer viagens domésticas. É verdade, há lugares espetaculares para se visitar e viver nos EUA. Mas não ter a ambição de descobrir outros cantos, conhecer outros países, vislumbrar outras paisagens, encontrar pessoas e culturas diferentes denota preguiça e muita falta de tesão pela vida.
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Não sai de minha memória a primeira viagem que fiz para longe das fronteiras do Brasil. Era o mês de maio, com aquele céu espetacular. Mochila nas costas, pouco dinheiro, sozinho, vivendo de sanduíches e salsichões. Um mês rodando a Alemanha, o muro perto do fim, tudo em transformação. Concretizei o desejo de Edith, a mãe de minha mãe. Ela jamais pôde ir. Projetou no neto, então, o grande sonho.
Fui.
Mas não pude contar a ela sobre as andanças e as surpresas de Berlim, Hamburgo, Colônia, Nuremberg, Dresden, Freiburg, Baden-Baden, Munique. Era tarde. Minha avó não estava mais neste mundo.
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Viva Fernanda, viva Fernandona, viva Eunice, viva o melhor do Brasil
As lembranças de viagens são vivas. Uma vez estava num hotel em Praga, um prédio enorme e sem charme (herança feiosa do regime comunista). Acordei com o furdunço que vinha do refeitório. Eram torcedores de um time de futebol da Escócia que jogaria contra um representante da República Tcheca. Desci para o café, trocamos algumas palavras sobre Pelé e Garrincha, me deram um ingresso para ver, com eles, a partida que valia por alguma competição europeia. Passei o dia meditabundo — ir ou não ir ao estádio, eis a questão.
Fui.
No estádio, cerca de dois mil escoceses, num cantinho e já mamados de cerveja, não paravam de cantar seus hinos. Eles usavam o kilt, traje tradicional das terras célticas. Possíveis erros da arbitragem, lances bisonhos dos adversários, tudo era motivo para que, em conjunto, levantassem o saião quadriculado e revelassem ao público seus traseiros gordos, espinhentos e brancos. Cenas dantescas. Eu apenas me divertia. Tudo aquilo não tinha preço.
Um provérbio chinês diz que uma longa viagem começa por um passo. “A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos”, escreveu o francês Marcel Proust. “Pior do que não terminar uma viagem é nunca partir”, completa certeiramente o navegador brasileiro Amyr Klink.
Viajar oferece experiências inesquecíveis. Juntamos nas viagens todos as sensações imagináveis: coragem, medo, paixão, angústia, otimismo, segurança, saudade, solidão, estresse, confiança, surpresa, susto, decepção, curiosidade, estranhamento, deslumbramento, encantamento, arrebatamento, às vezes tristeza, muitas vezes felicidade.
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Parafraseando os poetas Pessoa e Gil, viajar é preciso.
Ou não.