Muitas vezes me questiono onde estava em eventos importantes e dramáticos da história da humanidade. O Onze de Setembro, a queda do Muro de Berlim, o assassinato de John Lennon, a morte de Ayrton Senna são bons exemplos. Alguns anos à frente me perguntarei: onde me encontrava em 30 de novembro de 2024? Para jamais poder esquecer essa efeméride, vou deixar minha resposta registrada.
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Neste dia aconteceria um jogo de futebol muito importante em Buenos Aires. “Rumo à glória eterna, mano”, como se diz por aí. Vários amigos insistiram para que eu fosse à Argentina. Resisti. Decidi ver aquela final da Copa Libertadores na casa de meu pai, em São Cristóvão, Rio de Janeiro, a quase 3 mil quilômetros do Estádio Monumental de Nuñez.
Que tarde divertida e difícil. Ele, rubro-negro. Marina, minha filha, tricolor carioca; e Cintia, minha mulher, tricolor paulista. Todos vestidos com a camisa alvinegra. Uma irmandade em nome do filho, do pai e do marido sofrido. Um só coração em preto-e-branco (apesar de o adversário ter as mesmas cores).
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A decisão começa. Um jogador nosso consegue a delicadeza de ser expulso aos 40 segundos de jogo. Foi meu primeiro choro — de desespero e raiva.
Cintia, com a camisa que foi de Túlio Maravilha, ironizou: disse que meu time estava entrando para a história com aquela expulsão tão veloz e muito justa. Não respondi.
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Com um manto autografado por Loco Abreu, Marina sorriu timidamente e manteve-se em silêncio. Tromba, meu pai, com uma camisa usada por Renato Gaúcho, pediu calma e vaticinou: “Vamos ganhar assim mesmo”. Eu seguia incrédulo.
Corriam o jogo e meu nervosismo. Cintia e Marina revelavam-se assombradas com minhas reações de torcedor fanático. O pai mantinha a tranquilidade. “Vamos ganhar”, repetia baixinho.
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Socos na poltrona, 1 a 0 para nós; palavrões exasperados, 2 a 0 a gente; chutes na cadeira, gol do adversário.
Sufoco interminável, me sentia à beira do colapso. Sete minutos de acréscimo — que exagero, seu juiz.
O jogo inteiro com um homem a menos. Que valentes, que corajosos, que vontade de vencer tinham aqueles dez craques em campo.
No último minuto, 3 a 1. O gol que consolidava a conquista inédita. Chorando, fui à janela e gritei: “É campeão!!! Fogo!!!”. A rapaziada que enfiava o pé-na-jaca no Bestalhão, bar da esquina, respondeu: “Fogo!!!”.
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Voltei para a poltrona. Fui carinhosamente abraçado por Cintia, Marina e Tromba. Eu chorava e agradecia.
Sim, poderia estar em Buenos Aires com os amigos nesse dia histórico. Mas estava no pequeno apartamento de meu pai. Foi com ele que aprendi a amar o futebol, a ver em cada jogo muito mais do que um jogo em si. Cada partida de futebol, por mais desqualificada que seja, é uma novela. Tem começo, meio e fim. Idas, vindas, reviravoltas. Tem heróis, vilões e atores coadjuvantes. Tem drama, dor, choro, alegria, encantamento, contentamento. Impossível ficar indiferente a tudo isso.
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Hora das despedidas. Dei um beijo no nariz do Tromba. Ele foi à mesinha da sala e pegou o surrado envelope que continha um pequeno bilhete. Nele estava escrito: “O Botafogo vai ganhar de 4 a 1”.
Ele errou por pouco. Chorei de novo. Há coisas que somente nós, alvinegros cariocas, sentimos, sofremos e sequer sabemos explicar. Este dia, o 30 de novembro de 2024, estará para sempre marcado em meu combalido coração.
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“Sim, eu sou um homem e choro. Um homem não tem olhos? Não tem também mãos, sentidos, inclinações, paixões? Por que é que um homem não devia chorar?” August Strindberg, escritor sueco.
“Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar” Carlos Drummond de Andrade, poeta.
“Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não aguenta os que continuam vivos?” Mario Quintana, poeta.
“Eu chorei um oceano inteiro essa noite. Eu precisava esvaziar” Caio Fernando Abreu, poeta.
“A sorrir eu pretendo levar a vida… pois chorando eu vi a mocidade perdida” Cartola, compositor.
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