Num dos períodos mais duros da história dos Estados Unidos aconteceu um momento mágico do jornalismo: a união dos arquirrivais "The Washington Post" e "The New York Times". Começavam os anos 70 do século passado. Os americanos estavam envolvidos na Guerra do Vietnã – sem entender por que viam os filhos morrerem naquele conflito sem sentido, mostrado pela televisão. Então surge um dos maiores escândalos políticos do mundo.

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Recentemente o filme "The Post – A guerra secreta" (poderoso manifesto pela liberdade de imprensa) revelou um pouco dessa inesperada união. É possível encontrar muito mais em "Todos os homens do presidente", filme baseado no livro de mesmo nome, de Bob Woodward e Carl Bernstein, a dupla de jornalistas que investigou Watergate.

Que período conturbado. A crise do petróleo preocupava os americanos. Mentiras do governo sobre o Vietnã eram contestadas. E a descoberta de Watergate incendiou o país.

Na campanha eleitoral para a reeleição do presidente Richard Nixon, em 1972, cinco pessoas foram presas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata, no Complexo Watergate, em Washington. Por meses, Bernstein e Woodward tentaram confirmar as ligações entre a Casa Branca e a invasão. Uma fonte conhecida como "Garganta Profunda" assegurou que Nixon sabia das operações ilegais contra o candidato rival, o senador democrata George McGovern.

De todas as formas, através de pressões e ameaças, Nixon e os homens dele tentaram desacreditar a investigação, desqualificar o furo jornalístico e impedir a publicação das reportagens. Tudo isso em tempos em que não existiam redes sociais, robôs, campanhas de desinformação e afins.

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Aqui entra o The New York Times. O jornalão esqueceu a saudável concorrência para se aliar ao The Washington Post e ajudar na investigação e comprovação do caso que levou Nixon a ser, em agosto de 1974, o primeiro e único presidente americano a renunciar ao cargo.

Viajamos até a segundo década do século 21. Em várias partes do mundo vemos tentativas crescentes para desacreditar e debilitar o jornalismo profissional. As fake news, por exemplo, são uma arma potente nessas campanhas. Notícias falsas sempre existiram. Mas a disseminação nunca foi tão intensa quanto hoje, devido às redes sociais. Contra elas – e a ignorância que provocam – há um eficaz remédio: o jornalismo independente e responsável, que busca os contraditórios, checa as informações, que não é declaratório e comprova com dados e fatos o que está acontecendo.

O presidente americano, Donald Trump, disse que "o poder real é o medo". É falso. O poder real se faz com verdade, honestidade, justiça, resiliência, liberdade, ética, respeito, desprendimento. Desinformação e mentiras não ajudam a construir nem a fortalecer um país ou uma democracia.

Raridades

Um ex-jogador de futebol, craque da Seleção Brasileira, banalizou o “momento mágico”. Tudo, para ele, era um “momento mágico”. Eles são raros, como ver Paulinho da Viola cantar em tempos que sertanejos, funkeiros e pagodeiros mequetrefes maltratam a música brasileira; como acompanhar Mário Motta na bancada do Jornal Nacional, de dentro da redação da TV Globo. Momento mágico é estar vivo para ver o nascimento, o crescimento e o amadurecimento de nossos filhos. O resto é o resto.

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Vergonha

Em 3 de outubro de 1992 eu flanava pelas ruas de Paris. Estava em férias. Numa banca deparei com a foto chocante: vários corpos enfileirados no chão e a manchete do jornal francês “Libération” dizia “Barbárie”. Era o massacre do Carandiru. Senti vergonha. A mesma vergonha que sinto até hoje, quando vejo a polícia brasileira encurralar e assassinar inocentes.

Hora da calma

Do jornalista Bob Woodward, em recente entrevista ao jornal espanhol “El País”: “Se você for falar com mil pessoas, e lhes perguntar quanta gente desconfia da mídia, a maioria levantará a mão. Devemos recuperar a confiança, e a única maneira de fazer isso é recuperar a calma, produzir boas informações, apresentar os fatos às pessoas, e não ir a programas de televisão para dar soco na mesa”.

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