Esta semana completei 59 anos. Certamente foi o aniversário mais estranho de minha existência. No lugar de abraços, apertos de mãos, tapinhas nas costas e beijos, o necessário distanciamento social provocado pelo coronavírus.

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Tempos difíceis impõem que se olhe menos para o próprio umbigo e mais para o bem comum. Que sentido faz correr a prateleiras do supermercado em busca de rolos e rolos de papel higiênico? Como explicar a ganância de empresários que se aproveitam para aumentar preços? Nestas horas costumamos ver o pior lado dos seres humanos.

Tempos difíceis pedem liderança. Temos aqui o exemplo do presidente da República, que desrespeitou tudo o que se defende em todo o mundo e foi cumprimentar seguidores da manifestação, semana passada, em Brasília. O país está com medo, governadores tomam decisões drásticas, mas ele achava que a doença (classificada como pandemia pela Organização Mundial da Saúde) era fruto de histeria coletiva. Cegueira e irresponsabilidade.

Tempos difíceis revelam bons exemplos. Como os jovens que se organizam para comprar remédios e alimentos para os idosos, os mais atingidos pelo vírus. E o que falar de médicos e enfermeiros que lidam, por todo o planeta, com uma nova doença e fazem um trabalho destemido para salvar vidas?

Tempos difíceis reivindicam resistência. Nas ruas da China, no auge da doença, gritos de “Continuem lutando” e “Fiquem firmes” ecoavam à noite, cortando o pânico e o silêncio. E os italianos? Festivos, sem poder se reunir em bares, restaurantes, praças ou estádios de futebol, foram para as varandas cantar e tocar músicas, para animar a vizinhança durante a quarentena. Uma criativa resposta ao tardio isolamento imposto pelo governo.

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Tempos difíceis necessitam prevenção e informação. O coronavírus está circulando livremente entre nós. Não podemos subestimar o poder letal dele. A médica Mariângela Simão disse: “Tem que levar a sério, não é brincadeira. Não é só uma questão sua. Se você fica doente tem risco de infectar mais pessoas”. Viveremos momentos críticos. O número de infectados vai aumentar.

O número de mortos não será baixo no Brasil. Pequenos negócios vão quebrar. Cerca de 25 milhões de pessoas devem perder o emprego em todo o mundo. Não é hora de espalhar notícias falsas. Não é hora de desordem.

Tempos difíceis encorajam a reinvenção. O desastre global nos obriga a ficar em casa, num big brother às avessas. Precisamos encarar as horas de quarentena sem perder a fé na vida, a saúde intelectual, a responsabilidade cidadã. Precisamos tocar os nossos corações mesmo na distância.

Tempos difíceis precisam de coragem, organização, calma, humanismo, cidadania, solidariedade. Tempos difíceis exigem posturas e decisões difíceis.

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Tudo isso vai passar

Leituras separadas para tempos difíceis:

“A mulher do próximo”, do jornalista americano Gay Talese.

“Bom dia para nascer”, do cronista brasileiro Otto Lara Resende.

“As pequenas virtudes”, da escritora italiana Natalia Ginzburg.

“Berta Isla”, do espanhol Javier Marías.

“Submissão”, do francês Michel Houellebecq.

“Isso também vai passar”, da catalã Milena Busquets.

Isolados, jamais

Do psicanalista Contardo Calligaris sobre a pandemia na Era do Streaming: “É a primeira em que dispomos da possibilidade ilimitada de nos relacionar com amigos, parentes e amantes. Podemos estar isolados mas nunca sozinhos. Os idosos não devem nem sequer ser visitados, mas podemos jantar com eles a cada noite. Basta ter um computador na mesa.”

Canalha

Frase de humorista Millôr Fernandes, sempre muito atual: “Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos”.