
Em recente entrevista, o maestro argentino Daniel Barenboim mostrou-se desanimado quanto ao futuro da humanidade: “Não tenho otimismo para acreditar que as pessoas vão melhorar por causa desse vírus”, ele disse. Muito na moda da inteligência mundial, o historiador israelense Yuval Noah Harari afirmou à rede britânica BBC sobre o que virá depois da Covid-19: “Não creio que possa haver uma mudança fundamental na natureza humana”. Assino com os nobres relatores.
Continua depois da publicidade
Os seres humanos seguirão individualistas, egocêntricos, esquizofrênicos, idiossincráticos, incapazes de atuar como cidadãos, sem conseguir olhar além de suas próprias vontades. Nada vai mudar simplesmente porque somos um projeto fracassado.
Quando o coronavírus bateu à nossa porta corremos aos supermercados para comprar tudo o que podíamos e estocar – sem a menor preocupação com o outro, sem a menor preocupação com os mais pobres, sem a menor preocupação com o que estava acontecendo, onde tudo isso poderá parar. Mais tarde, já com a Covid-19 dizimando vidas no Brasil e em vários países desenvolvidos, vamos para as ruas correr, namorar, praticar esportes, fazer pagodinho e churrasquinho nas lajes, andar de jet ski no beira-mar poluído. Somos inviáveis.
Se Donald Trump não ouviu os especialistas, sentou-se em cima do problema e agora os Estados Unidos veem o número de mortes crescer, aqui seguimos o mau exemplo que vem do Palácio do Planalto. O presidente despreza o conhecimento científico, a força do poder e a boa educação. Prega para convertidos que saem às ruas para defender a volta imediata e desordenada à normalidade. E o pior está por vir, será em maio e em junho, de acordo com o Ministério da Saúde.
Em site especial, saiba tudo sobre o novo coronavírus
Gente maluca e sem noção ronda por aí. Do conforto dos luxuosos lares, refestelados em enormes poltronas e com estantes vazias ao fundo, celebridades fazem repulsivos vídeos e lives sobre como é importante ficar em casa e seguir pensando positivo. Na Índia, país que vive rigoroso e policialesco regime de isolamento social, dez turistas estrangeiros foram flagrados passeando por uma cidade sagrada. Como punição, foram obrigados, cada um, a escrever “I’m so sorry” 500 vezes. E o que dizer de idiotas que foram à Avenida Paulista, em São Paulo, comemorar as mortes pulando com um caixão, numa demonstração de desapreço pela vida humana? O horror, o horror.
Continua depois da publicidade
Vivemos uma grave crise de saúde pública. Viveremos uma longa depressão econômica e social. O vírus vai passar. Mas a burrice e a estupidez humanas permanecerão. Faz parte de nossa natureza. Somos inviáveis.
Do comediante americano Larry David:
“Se eu entrar na casa de alguém e encontrar 50 rolos de papel higiênico, vou deixar de ser amigo da pessoa. É o equivalente a ser ladrão de cavalos no Velho Oeste”.
Do escritor americano Teju Cole no conto “Cidade de dor”:
“Dizem que nenhum homem é uma ilha, mas em Reggiana todos os homens e todas as mulheres eram ilhas. Todas as crianças e todos aqueles que não eram nem homens nem mulheres eram ilhas. Essas ilhas eram capazes de ouvir umas às outras, mas continuavam separadas, sem tocar-se, um arquipélago humano”.
Do cantor americano Bruce Springsteen:
“A gente não sabe preservar o amor. Mas a gente sabe preservar a dor”.