Eugene Levy é um consagrado ator canadense de 76 anos, que se diz nada aventureiro. Pois foi ele, paradoxalmente, o escolhido para comandar uma série bem divertida no streaming. Em “O Viajante Relutante”, ele deixa a zona de conforto e roda por Finlândia, Costa Rica, Veneza, Utah, Maldivas, África do Sul, Tóquio e Lisboa. Levy nos diverte com suas observações, descobertas, desesperos, desconfortos, reflexões sobre o ser e o existir. O ator parece um seguidor da máxima de Mário Quintana: “Viajar é mudar a roupa da alma”.
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Viajar é tudo isso e muito mais. É descobrir-se, redescobrir-se, sumir sem mapas, apaixonar-se perdidamente. É bater de frente com torres e muralhas. É enriquecer a alma, o corpo, o espírito. É encher-se de empatia, afeto, novos sabores e texturas.
Em meu caso, gosto de andar (12 a 15 quilômetros por dia, faça sol ou faça frio), de gastar horas nas livrarias e nos museus das cidades, de ver as pessoas rondando ao redor. Sou metódico, a programação está quase toda organizada. Mas admiro, também, quem sai como uma página em branco.
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É o caso de Eugene Levy. Em sua visita a Lisboa, cidade sobre a qual ele havia ouvido falar muito pouco, o ator se diverte num bonde, se encanta com a beleza do céu azul, se empanturra com o pastel de nata, vai a uma casa de fado (“a versão lisboeta do blues americano”, diz ele), onde timidamente toca violão durante o show. “Lisboa é um dos lugares mais lindos do mundo”, afirma Levy, completamente encantado e enamorado com o que viu na capital de Portugal.
“As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”, escreveu o poeta Fernando Pessoa. Conheço gente, porém, que não gosta de viajar, de abraçar os lugares. Por preguiça, por falta de paciência com aeroportos, por medo de avião. Abrem mão da surpresa do encontro com o desconhecido. São, mesmo que não saibam, seguidores do poema “Antiviagem”, de Waly Salomão: “Meu aconchego é o perto,/o conhecido e reconhecido,/o que é despido de espanto/pois está sempre em minha volta,/o que prescinde de consulta/ao arquivo cartográfico”.
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Eu viajo. Nos sonhos, na volta à infância, rumo ao futuro. Viajo no tempo. Viajo agora, à minha quase adolescência, quando descubro que “The Dark Side of the Moon”, da banda inglesa Pink Floyd, está fazendo 50 anos. Dia 1º de março de 1973, o disco era a reinvenção do rock. Fez sucesso, tornou-se um marco histórico da música pop. Lembro até hoje do dia em que comprei meu exemplar, numa pequena loja do subúrbio carioca. O LP embalado num plástico fino, a capa com o famoso prisma, o disco rodando na vitrola mequetrefe, minha mãe (fã de Roberto Carlos, Elis Regina, Bethânia, Clara Nunes, Martinho da Vila, Tim Maia) me perguntando que diabos era aquele som… Eu viajando, moleque, inocente em minha total ignorância, sem entender, perceber e saber que ouvia um disco que sobreviveria até hoje e ainda fascina tanta gente.
Que viagem. Quantas descobertas. “A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos”, escreveu Marcel Proust. Que minha curiosidade, meu poder de estranhamento e meus velhos novos olhos resistam à força dos ventos e das infinitas tempestades.
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Sobre o regime de trabalho análogo à escravidão em vinícolas gaúchas: o vereador tenta defender o indefensável com incivilidade, preconceito, discriminação, racismo e xenofobia. Depois pede desculpas, dizendo que não disse o que disse. A estupidez e a barbárie imperam.
Seguem as revelações sobre o Propinoduto do Lixo, trazidas à tona por brilhantes jornalistas da NSC. Gente graúda do Ministério Público não tem dúvidas em dizer: trata-se do maior escândalo de corrupção da história de Santa Catarina. E tudo muito bem documentado.
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