Durante quatro meses estivemos juntos todas as segundas-feiras, das 19h30 às 23h. Espalhados pelo país, por vídeo, falamos de literatura, criatividade, liberdade, finitude, medos, cólera, esperança, sonhos, vulnerabilidades, amores. Dividimos dicas de livros, revistas e entrevistas, ouvimos histórias fantásticas, nos emocionamos com textos brilhantes, choramos, demos gargalhadas. Durante quatro meses tivemos um refúgio de gentileza em meio ao caos político, econômico e sanitário que vivemos. Fomos felizes naquelas noites.
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Éramos 13. Na liderança de um grupo tão heterogêneo e divertido, a escritora Andrea del Fuego. Paciente, talentosa, generosa, respeitosa, Andrea repetia incansavelmente: “Vamos fazer um exercício. Escrevam, escrevam. A literatura pode tudo. A literatura é possível”. E foi o que fizemos. Escrevemos e lemos para que todos participassem com suas experiências e pitacos construtivos. Ouvidos afiados e olhos brilhando, Andrea anotava, comentava, buscava referências em sua vasta biblioteca, revelava possibilidades e caminhos – sempre de forma apaixonada e elegante.
Em meu caso, esta foi a primeira oficina criativa da qual participei. Entrei com um pé atrás, me senti envergonhado. Percebi de cara o quanto pode ser sofrida a transição da objetividade da informação para o texto literário (afinal, são quase 40 anos de jornalismo e redações). Andrea e os companheiros me deixaram à vontade, me ofereceram carinho e coragem. Venci a timidez. Saí com o coração fortalecido.
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Nesses quatro meses vivi pesadas semanas de trabalho (a pandemia não dava, não dá trégua). Às vezes sequer sobrava tempo para ler uma página de um livro. Então esperava, com a ansiedade de menino-menino, pela aula de segunda-feira, para ouvir os colegas e suas deliciosas tramas. Aquilo fazia tudo valer a pena, compensava tudo, ajudava a recuperar a crença de que o Brasil (com B maiúsculo) ainda é possível, sim.
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Foram quatro meses de muitos exercícios literários, ensinamentos, descobertas. (Quantos autores novos entraram em minha vida?) Foram quatro meses, sobretudo, de muitos exercícios de generosidade. Andrea, Ivone, Lídia, Denise, Carmen, Jack, Marcela, Zé, Euler, Pedro, Gabriel, Axé e Thiago, muito obrigado por tudo. E escrevam, escrevam sempre. A literatura e a amizade tudo podem.
PS: Caras leitoras e caros leitores, paro por duas semanas. Fiquem bem e protejam-se.
Pra refletir
De Cesare Pavese:
A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida.
De Roland Barthes:
A literatura não permite caminhar, mas permite respirar.
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De Jorge Luis Borges:
A memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações.
De Fernando Pessoa:
A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.
De Susan Sontag:
Literatura é liberdade.
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