Enquanto decido sobre a fantasia que usarei, acompanho a polêmica em torno de Alessandra Negrini. Rainha de um bloco paulistano, a atriz escolheu uma fantasia com referências indígenas. As patrulhas do politicamente correto caíram rachando, espinafrando, esquartejando. E o que era festa se transformou numa gigante discussão sociológica-antropológica-metafísica sobre o Carnaval.
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Intelectuais modernos-inteligentinhos dizem que Negrini estaria se apropriando de outra cultura – ou seja, de símbolos de minorias usados por grupos dominantes. Nas redes antissociais, a discussão pegou fogo. Veio o linchamento: “Cancela a Alessandra!”, gritam os justiceiros virtuais escondidos em contas falsas. Afinal, desfilar de índio ou turbante não pega mais bem nos blocos espalhados por todo o país.
Usado simplesmente para deixar de ter um serviço ou desmarcar um compromisso, o verbo “cancelar” passou a servir para boicotar pessoas. É a “cultura do cancelamento” neste mundo insuportavelmente chato.
Evidentemente, não se pode achar normal um sujeito fantasiado de nazista ou de membro da Ku Klux Klan. Não se pode aceitar que mulheres sejam assediadas por idiotas machistas. Não é não! Não se pode tolerar violência física ou verbal por conta de orientação sexual. Mas Carnaval é sátira. Usado com cidadania e respeito às diferenças, o Carnaval é um raro momento para se exercer a criatividade, a liberdade, a ironia.
Não faltam inspirações para uma boa fantasia no mundo de hoje. Sinto saudade de quando me fantasiava de índio para os desfiles do Cacique de Ramos (bloco que sai há 59 anos no subúrbio do Rio hoje também sob a ameaça do “cancelamento”). Sinto saudade dos tempos em que me fantasiava de mulher para o Bloco das Piranhas (que contava com todos os craques do futebol nos anos 1970). Os tempos são outros e hoje estou por duas: Empregada Doméstica na Disney e Peixe Esperto Foge do Óleo.
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Recentemente, alguns blocos decidiram até tirar marchinhas clássicas do repertório. Elas seriam ofensivas, politicamente incorretas. Que discussão mais desimportante. O Carnaval chegou. Quem gosta, aproveite com respeito e moderação. Quem não gosta, que deixe o outro se divertir. E eu aqui vou sambando e cantando:
“Deixa eu brincar de ser feliz/Deixar eu pintar o meu nariz”.
Mentira
Trecho muito atual de “Boca Fofa”, música de Criolo: “A mentira se fez assim, perdeu dente e a língua/E o boca fofa é tendência global/Pra menino e menina”.
Vergonha
Infame e desprezível. É o mínimo que se pode dizer do ataque do presidente da República feito a uma repórter da Folha de S.Paulo. Ataque indigno do cargo que ele ocupa.
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