Tenho alguns irremediáveis problemas com viagens. O maior deles é a relação estressante com aeroportos. Podem ser os mais bem cuidados, os mais lindos e cheirosos, odeio todos da mesma forma. Outra questão grave, ao chegar a qualquer canto do mundo, é o da confirmação do pouco que conheço. Afinal, viajar é descobrir, se descobrir, andar sem precisão, perder-se, achar-se, olhar, estranhar, conversar, ouvir histórias, aprender, bater pernas, flanar. Viajar é se deparar com a dimensão de nossa insignificância e a vastidão de nossa santa ignorância.

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Fomos conhecer Helsinque, capital da Finlândia. O país foi eleito, pelo sexto ano consecutivo, o lugar mais feliz do mundo, de acordo com o Relatório Mundial da Felicidade, produzido pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Ficamos pouco tempo para fazer algum tipo de constatação. Mas o “New York Times” mandou uma repórter até lá para ver se isso era verdadeiro.

Ela descobriu que os finlandeses não são tão felizes assim. Descobriu, também, que eles elogiam muito a rede de seguridade social, os benefícios proporcionados pela belíssima natureza do país, o modo de vida sustentável. Descobriu ainda a palavra “sisu”, de caráter nacional, que significa uma determinação inabalável, a inegociável resiliência diante de obstáculos como o rigor dos meses de inverno e o crescimento de sentimentos e ações xenófobas contras os imigrantes.

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Ficamos alguns dias por lá. Impossível dizer se são mesmo o povo mais exultante e sorridente do planeta. Nas ruas observamos uma gente muito reservada e educada. Numa conversa com o animado taxista afegão, ele nos disse: “Vivemos no verdadeiro socialismo, temos todos os benefícios. O sucesso financeiro serve para sustentar nossas necessidades básicas. Nada além disso. Nada nos falta. Não somos tão felizes assim, somos até ranzinzas, mas somos e vivemos tranquilos”.

Na Holanda descobrimos o valor da palavra “niksen”, apresentada recentemente em belo artigo da linguista Olga Meckin na BBC Travel. Nada a ver com o “ócio criativo” pregado pelo brilhante sociólogo do trabalho Domenico De Masi.

Com o amigo Sérgio Zalis experimentamos o “niksen” numa praia de Haia. Praticar o “niksen” é não fazer literalmente nada. É olhar o mar, cultuar o céu, o sol e as estrelas, relaxar sob uma árvore, tirar uma soneca num banco qualquer, observar as crianças brincando na grama, tomar uma cerveja nem tão gelada pensando nas belezas da vida. Ou mesmo andar de bicicleta sem rumo, contra o vento, sem lenço e sem documento.

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A bicicleta é paixão e extensão do cotidiano dos holandeses. De acordo com cálculos do Dutch Cycling Embassy (isso mesmo, existe a Embaixada do Ciclismo), são 23 milhões de bicicletas para 17,5 milhões de pessoas. Amsterdã, a capital do país, tem quase 800 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas.

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De volta ao Brasil, lembro como a maciça maioria do povo (hoje somos 203 milhões de habitantes) vive uma subespécie do “sisu” dos finlandeses: é necessário sambar e lutar para apenas sobreviver, a resiliência posta à prova minuto a minuto, dia a dia, mês a mês, ano a ano. Lembro e lamento que, por conta de tanta luta e tão pouco tempo, energia e dinheiro, os brasileiros não possam desfrutar do merecido “niksen”.

Para refletir:

“Viver é como andar de bicicleta. É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio”

Albert Einstein, físico teórico alemão

“Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira”

Goethe, escritor alemão

“Independência nada tem a ver com os ‘dois lados”

A.G. Sulzberger, publisher do New York Times

“Fazer sofrer é a única maneira de se enganar”

Albert Camus, escritor

“No jornalismo, a clareza é um valor. Nos romances, a ambiguidade é um valor. No jornalismo, você fala do que sabe. Nos romances, fala do que não sabe que sabe. No jornalismo, você é uma árvore falando das árvores ao redor. Nos romances, você tenta ser uma águia, voar e ser capaz de descrever o bosque”

Rosa Montero, escritora espanhola

“Um bom relacionamento é recíproco, existe uma dinâmica de dar e receber. É uma relação onde existe apoio, troca e espaço para crescer e mudar também. As pessoas mudam, e numa boa relação existe acolhimento para essas novas versões”

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Roberto Waldinger, professor de psiquiatria na Universidade Harvard

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