Alguém teria dito, lá atrás, que o Brasil não é um país sério. Outro, mais recentemente, bancou que o Brasil não é um país para amadores. Com humildade, digo que o Brasil não é sério, nem para amadores e é um país cansativo. O Brasil cansa – e muito.
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O Brasil não é um país para gente de boa-fé. É preciso estar, todos os dias da semana, 24 horas por dia, atento, forte, ligado, com o desconfiômetro aceso. Na fila do supermercado, numa compra pela internet, dentro de um táxi, na contagem do troco na banca de revistas, na relação desigual entre clientes e bancos. Relaxar aqui é para fracos.
Retidão, decência, correção e honestidade ainda estão em desuso. O jeitinho e a vontade de levar vantagem em tudo seguem impregnados em nosso cotidiano. Juan Arias, correspondente do jornal espanhol “El País” no Brasil, escreveu que o jeitinho está mais próximo a uma “criatividade ancestral do que a uma incapacidade de querer encarar as coisas legalmente”. Criatividade aqui é sinônimo de malandragem – ou de sagacidade, para ser mais romântico.
A engenhosidade para aplicar golpes é interminável – as redes sociais são uma festa para os cibercriminosos, uma praga mundial. Para se ter um exemplo, os roubos cibernéticos em contas bancárias chegam a R$ 2 bilhões por ano no Brasil, mesmo com o investimento das instituições financeiras em tecnologias para tentar barrar fraudes. Não adianta. Os bandidos são especialistas no mais vulnerável ponto do sistema: o ser humano.
Vivemos, agora, a onda da clonagem do WhatsApp para pedir dinheiro emprestado. Fui vítima deste golpe semana passada. Ele é até simples. O WhatsApp de uma pessoa conhecida é invadido e fraudado. (Por coincidência, em meu caso, o de um grande amigo que acabara de voltar de Portugal com a família). O falso amigo, então, pede dinheiro para devolver no dia seguinte. Com a franqueza de uma criança e como um pato desatinado, faço o depósito sem pestanejar, para logo depois descobrir que fui vítima de estelionato e me sentir o sujeito mais burro do planeta.
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A fragilidade humana é posta à prova diariamente – no mundo real e no mundo virtual. “Shit happens”, dizem os americanos. O problema é que elas acontecem sem parar. Para seguir em frente, são necessárias força, paz de espírito, paciência, sabedoria, resiliência. Mas não é nada fácil.
Está cansativo – e muito.
Chico, o diretor de sonhos

De Chico Buarque em “Essa gente”, belíssimo livro do cantor-compositor-escritor: “Também existe a categoria dos sonhos lúcidos, quando você sabe que o sonho é sonho, mas não consegue ver a saída. Ou vê, mas não quer sair, ou sai e já volta porque aqui fora é um absurdo, ou tem a pretensão de o conduzir a seu bel-prazer, como se você fosse um diretor de sonhos”.
Bomba atômica
No também belíssimo sul-coreano “Parasita”, forte candidato ao Oscar de filme estrangeiro, as redes sociais são usadas como possível acionador de uma bomba atômica. Não a bomba que, a qualquer momento, pode sair da ditadura vizinha norte-coreana. Mas a alegoria se refere diretamente ao novo mundo de ameaças, intimidações e perigos provocados por Facebook, WhatsApp e afins.
Viva o Humor
O Porta dos Fundos ganhou o Emmy Internacional de Melhor Comédia, com o especial “Se Beber, Não Ceie” – paródia da última ceia de Jesus Cristo e outros eventos bíblicos. Em tempos bicudos o humor está aí para nos aliviar.
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