Numa bonita entrevista concedida ao “New York Times”, o ex-presidente do Uruguai José Mujica afirmou: “Que animal complicado é o homem. Ele é inteligente e estúpido ao mesmo tempo”. Genial e simples como Mujica, que aos 89 anos vive numa pequena casa nos arredores de Montevidéu e luta contra um tumor no esôfago.
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Somos capazes de construir o indizível e de destruir a terra, fazer guerras, violentar, humilhar, torturar, assassinar, promover barbáries, desumanizações, extermínios. Mas apesar de todo o ceticismo, ainda temos a capacidade de fazer coisas belas, como mostram “Somos Animais Poéticos”, da antropóloga francesa Michèle Petit (Editora 34); e “Wild God”, novo disco de Nick Cave. Apesar de tudo, vale sonhar — e sonhar (ainda) é de graça.
No livro, Petit mostra como a literatura, o encantamento, a curiosidade e a beleza ajudam a superar traumas e adversidades e a lidar com as estranhezas da vida e da morte. “A beleza traz doçura ao mesmo tempo que acalma, acolhe, traz de volta a capacidade de sonhar, mas também permite dar forma e sentido a acontecimentos insanos, pensar o impensável em vez de se tornar para sempre prisioneiro dele”, escreve Michèle.
São exatamente beleza e otimismo o que encontramos em Nick Cave. O australiano perdeu dois filhos no espaço de sete anos. Como sobreviver a duas tragédias devastadoras? O músico respondeu com quatro discos inteiramente tomados pela dor e a melancolia: “Push the Sky Away” (2013), “Skeleton Tree” (2016), “Ghosteen” (2019) e “Carnage” (2021). Já “Wild God” (lançado na sexta-feira, 30/8) ressoa como a reparação de Cave. A beleza está lá — música a música, nos arranjos, nas letras.
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“A utilidade do sofrimento é a oportunidade de nos tornarmos seres humanos melhores. É o motor da nossa redenção”, afirmou Nick Cave recentemente.
Os olhos azuis de minha mãe são dois brincos de pedra rara, como diria o poeta. Costumo dizer que se um dia deixar de admirar e me encantar com a beleza desses olhos, estarei devidamente morto. O estranhamento do belo (e do horror também) é puro sinal de vida.
Voltemos à entrevista de Mujica ao “NYT”. Uma aula de simplicidade, de como se viver com respeito ao outro, à terra, ao mar, aos animais, à vida. Ele disse: “A humanidade precisa trabalhar menos, ter mais tempo livre e ser mais centrada. Por que tanto lixo? Por que você precisa trocar de carro? Trocar a geladeira? Só há uma vida e ela acaba. Você tem que dar sentido a ela. Lute pela felicidade, não apenas pela riqueza”.
Por que tanto lixo? A simplicidade da pergunta merece a pureza das respostas das crianças. Que animal bizarro nos tornamos.
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Difícil explicar
Botafogo 3 x 4 Palmeiras, Campeonato Brasileiro de 2023, no Rio de Janeiro. Palmeiras 2 x 2 Botafogo, Copa Libertadores de 2024. Dois jogos de futebol em menos de um ano. Dois jogos que certamente ajudarão a abreviar minha pobre existência. Pouca gente consegue entender o que é ser torcedor alvinegro, nossos medos, (des)crenças, nosso pessimismo e derrotismo. Ser torcedor do Botafogo não é para amador. É como padecer no inferno.
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