Havia me comprometido a não mais escrever sobre o tema. Cansativo, tóxico, doído, desanimador, faz mal ao coração, à alma, ao corpo, à cabeça. Durou pouco. Está puxado. A sucessão de descalabros faz com que reveja meu pequeno juramento. Indignação, aqui me tens de regresso.

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Virou moda chamar Jair Bolsonaro de genocida. É retórica juvenil e reducionista em tempos de radicalização política e esgotos que correm nas redes antissociais. Pela definição da ONU, genocídio é o extermínio deliberado de um povo por razões étnicas, militares, religiosas ou culturais. Aqui se enquadram Pol Pot, Stalin, Hitler, Mao, Leopoldo II. O Brasil está longe disso.

Mas chamam a atenção o primitivismo, a irracionalidade, o negacionismo, a tosquice de sua administração. Estamos falando de um presidente que, com o país envolvido na maior pandemia da História recente, dá as costas à ciência, aos profissionais de saúde, às famílias de 40 mil vítimas, à vida. Estamos falando de um presidente admirador da dinâmica do conflito. Para ele o jogo não é jogado, precisa ser brigado no campo.

Dessa forma ele comanda o governo da destruição, o governo da desconstrução, o governo da falta de diálogo com os demais Poderes e com a oposição, o governo que põe em completa ameaça nossas instituições e nossa jovem democracia. O governo que mantém, em seus corredores, o “Gabinete do Ódio”, pronto para atacar a reputação de quem se opõe a tudo o que ele pensa e prega.

A barbaridade mais atual foi a tentativa, levada a cabo a pedido do próprio presidente, de maquiar e abafar dados de casos e mortes da Covid-19. Tiro no pé. A ideia, por si só, demonstra o fracasso do governo federal no combate à doença. Horrorizados, secretários de saúde de vários estados se apressaram a criticar essa tacanha ofensiva. A repercussão em todo o mundo foi desastrosa. O STF interveio.

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Se não há transparência nos números, há ainda mais necessidade da imprensa profissional e independente. Importantes veículos de comunicação se juntaram para trabalhar, de forma colaborativa, na busca de informações confiáveis nos 26 estados e no Distrito Federal e, assim, montar um painel real da pandemia no país.

O governo de Donald Trump tem dinâmica muito parecida. Acabou atropelado pela pandemia e pelas maravilhosas manifestações antirracismo nas ruas dos Estados Unidos. Ben Smith, colunista de mídia do jornal “The New York Times”, escreveu recentemente: “Vivemos em uma era de conspirações e de inverdades perigosas, e elas levaram os americanos comuns a acreditar apaixonadamente em teorias insanas e infundadas, e a rejeitar ferozmente quaisquer provas em contrário.” Qualquer semelhança com o que acontece por aqui não é mera coincidência.

Nossos idosos estão sendo levados pelo coronavírus. Nossas crianças, como João Pedro e Miguel Otávio, estão sendo assassinadas. Vivemos entre a desvalorização da vida e a banalização da morte. Lutamos, diariamente, contra o desmantelamento da educação, da cultura, da liberdade de expressão, da verdade, dos valores mais humanistas de nosso dia a dia. O Brasil nunca esteve tão melancólico e ignorante.

Vida inteligente

Casagrande
Casagrande (Foto: Bruno Santos, Folhapress)

Em todas as conversas com Casagrande, ele provocava: “Por que a ética do futebol é diferente da ética da vida? De onde tiraram isso?”. Agora, em meio à pandemia, ele levanta a voz em crítica aos dirigentes que defendem a volta aos gramados o mais rapidamente possível. “Para que essa pressa toda?”, ele indaga. Casagrande é vida inteligente num país dominado pela tosquice.

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Do escritor britânico David Nicholls:

“Depois da quarentena vamos desejar o contato físico. Suspeito que, quando for seguro, vamos entrar numa era de contato físico selvagem, desesperado e decadente”.

Do cronista capixaba Rubem Braga, numa crônica de 1953:

“Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade”.

Do escritor checo Franz Kafka em texto de 1923:

“Vivo em paz no mais recôndito da minha casa, e enquanto isso o adversário, vindo de algum lugar, perfura lento e silencioso seu caminho até mim”