Rita Lee Jones era uma artista brilhante e vanguardista. Era uma mulher transgressora e gigantesca, obviamente muito à frente de seu tempo. Dela tenho algumas recordações. No fim da infância e começo da adolescência, lembro de seu estilo psicodélico nos Mutantes e depois no Tutti Frutti. Já dos anos 80 do século que passou vem à memória um show do qual nós, essencialmente todos nós, deixamos o teatro extasiados.
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No palco, com suas músicas inesquecíveis e a incansável vibração, Rita nos mostrou por que sempre seria a Rainha Rebelde do Rock brasileiro – e por que faria tanta gente feliz. Mais recentemente (2021), no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, visitei a exposição “Rock Exhibition Rita Lee”, onde se encontravam itens originais da vida pessoal e da carreira de cinco décadas (a própria Rita selecionou o acervo).
Rita Lee se foi. Com ela, um bom pedaço de mim. Impossível não sentir o golpe, não balançar com a bordoada no coração. Impossível não sentir que algo se quebrou dentro do peito. Tem sido assim, de alguns anos para cá, com essas infelizes despedidas.
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Foi assim com Roberto Dinamite. Leila, minha mãe, é torcedora do Vasco. Acho que Leila mais amava Roberto Dinamite do que o próprio clube. Leila me convidava para ver jogos no Maracanã com mais de cem mil pessoas. Apertados no desconfortável cimento da arquibancada, sob o calor cruel de 40 graus, de mãos dadas, sem conflitos, lá estávamos nós dois, mãe vascaína e filho botafoguense, admirando as proezas do artilheiro.
Roberto Dinamite se foi. Outro pedaço foi tirado de mim.
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Lembro de Glória Maria, jornalista guerreira, vencedora, competente com quem convivi profissionalmente por alguns anos. As histórias sobre suas aventuras e reportagens contadas em voz alta, o sorriso lindíssimo, os olhos brilhando, o abraço apertado seguido por um xingamento carinhoso (sim, Glória conseguia essa façanha). Bastava encontrar Glória, por alguns míseros minutos, para toda a vida valer a pena.
Glória se foi. Assim como, em 2022, aconteceu com o Rei Pelé, Gal Costa, Elza Soares, Erasmos Carlos, Jô Soares. Vários pedaços de mim implacavelmente arrancados.
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Num lindo texto de despedida da mãe, João Lee escreveu: “Sempre conversamos sobre o quão terrivelmente importante é escolher bem seus heróis. São eles que moldam as nossas vidas, o nosso comportamento e quem somos. Precisamos pensar e escolher com muito cuidado. Se você quiser ter uma noção de quem uma pessoa é, ou vai ser, pergunte a ela quem são seus heróis”.
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Hoje penso em Rita, penso também em Leila. Acho que aprendi a gostar das pessoas certas. Isso devo a ela. Com tantos dissabores, decepções e adversidades, minha mãe encontrou tempo e força para nos mostrar o que é a ética, o respeito e o amor. E, dessa forma, minha vida se fez plena de tantos heróis. Garrincha, Pelé, Clara Nunes, Tim Maia, Gal Costa, Erasmo, Milton Gonçalves, Elis Regina, Cazuza, Elza Soares, Tarcísio Meira, Chico Anysio, Chacrinha, Jô Soares, Glória, Dinamite, Rita Lee.
Pra refletir:
“Meus heróis morreram de overdose/meus inimigos estão no poder”.
Cazuza, cantor e compositor
“Meus heróis também morreram de overdose/De violência, sob coturnos de quem dita decência”.
Emicida, cantor e compositor
“Antigamente canonizávamos nossos heróis. O método moderno é vulgarizá-los”.
Oscar Wilde, escritor
“A raça humana exagera em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância”.
Charles Bukowski, escritor
“Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se”.
William Shakespeare, dramaturgo e poeta
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