Esta semana um clube de Portugal, Belenenses, fez uma proposta inusitada ao goleiro Buffon, campeão do mundo pela Itália em 2006. Na carta-convite dizia: “O contrato vai incluir ainda um pacote de seis pastéis de Belém por semana, uma das especialidades mais apreciadas da doçaria portuguesa, que irá certamente saborear sem alterar a sua dieta alimentar”. Simplesmente espetacular. Buffon é rico, famoso, multicampeão. E morar em Lisboa, perto do Tejo, com direito aos saborosos pastéis de Belém, faz a gente pensar com muita seriedade.
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O mundo está aborrecido. O futebol é apenas um reflexo dessa chatice. Perdeu o romantismo, a inocência. Clubes pensam em negócios e verbas. Jogadores não estão nem aí para clubes, torcedores e seleções, pensam em dinheiro, publicidade e cliques nas redes sociais. A roda gira, acabou o amor.
Atletas e técnicos mostram-se alienados, como se o futebol fosse um outro mundo, como se o futebol tivesse uma ética totalmente diferente. Atletas e técnicos fazem questão de se mostrar ignorantes e apolíticos, como se nada na vida tivesse conotação política. Tudo na vida, minhas caras e meus caros, absolutamente tudo é política. Atletas e técnicos são capazes de divulgar um “manifesto”, pelas redes sociais, no qual sequer citam a Covid-19 e o número de mortes que a pandemia já causou no país. Atletas e técnicos de futebol realmente vivem em outro planeta, um planeta tomado por omissão, covardia, egoísmo, cegueira e falta de cidadania.
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Sempre procuro ler Eduardo Galeano, escritor que morreu em Montevidéu aos 74 anos. Jogador frustrado, viciado em futebol, um dia Galeano escreveu: “O futebol continua a ser a mais importante paixão popular do mundo que ainda está agarrado a velhos preconceitos que esquerda e direita têm e compartilham sobre futebol. Para a direita, o futebol era a prova de que os pobres pensam com os pés; para a esquerda, o futebol era culpado pelas pessoas não pensarem”.
Nelson Rodrigues é outro mar em que sempre mergulho. Cronista, jornalista, romancista, teatrólogo, louco por futebol como o colega uruguaio, ele publicou: “Duzentas mil pessoas vendo o mesmo videoteipe hão de ter duzentas mil visões do mesmo lance. Assim é o homem, assim é o torcedor, assim é o videoteipe, assim é o futebol. Por isso a vida é engraçadíssima”. (Uma curiosidade: o que Nelson e Galeano diriam do VAR?)
> A lição de sensatez, a rede de contradições e a piada mundial
Hoje, mais do que ver futebol, uso minha energia para ler sobre o esporte que aprendi a amar. Boas biografias, boas entrevistas, os pensadores que veem e escrevem com inteligência e humanismo sobre o mundo da bola. Fui, sou e serei um apaixonado saudosista. Muitas vezes é preciso olhar o passado para enxergar o futuro. Mesmo que este futuro nos aponte para caminhos obscuros e nebulosos.
Pra refletir:
Do escritor uruguaio Eduardo Galeano:
Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.
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Do escritor Nelson Rodrigues:
Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.
Do escritor Luiz Felipe Pondé:
Diante da histeria reinante do mundo, a consciência da nossa irrelevância pode ser um traço de rara lucidez.
Do escritor peruano Júlio Ramón Ribeiro:
A única maneira de continuar vivendo é manter serena a corda de nosso espírito, tenso o arco, apontando em direção ao futuro.
Do poeta galês Dylan Thomas:
A luz irrompe onde nenhum sol brilha.
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