Em “Um lindo dia na vizinhança”, o espectador tem direito a um momento especial: um raro minuto de silêncio para o exercício de pensar em quem amamos, em quem nos ama, em quem nos ajudou a ser o que somos. O minuto é poderoso, dura uma eternidade. Muita gente não segura as lágrimas. E sobram narizes vermelhos na saída do cinema.
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Na sala escura, dediquei meu minuto à minha mãe. Pensei na dura infância dela, o difícil casamento com meu pai, os cheiros da casa e as tarefas que ela realizava em nossas infância e adolescência, as fantasias que ela costurava para o Carnaval (índio, pirata, super-herói), as festas de aniversário que ela planejava e organizava na rua de classe média-baixa do Rio de Janeiro. Pensei nos passeios pelas praias durante as férias, o cuidado com a saúde dos três filhos, a inflexível cobrança para que nos transformássemos em pessoas educadas e honestas, a maternidade e paternidade que ela cumpriu com rigor e êxito.
A autoajuda de “Um lindo dia na vizinhança” é frouxa. Não se sustenta nem psicológica, nem filosoficamente. Tem o sempre excelente Tom Hanks no papel de Fred Rogers, apresentador de um programa infantil muito popular nos Estados Unidos. Tem uma excessiva ternurinha que faz sentir saudade da impaciência demonstrada (algumas vezes) por Xuxa com a criançada. O filme fala também de gratidão – considerado a mãe e o pai de todos os sentimentos –, esperança e respeito às diferenças.
O tenista Novak Djokovic disse que foi educado entre guerras e que a falta do básico para se viver bem o fez mais forte. Djoko é sérvio, viu de perto toda a barbaridade dos conflitos dos Balcãs, onde quase 200 mil pessoas morreram. Passei longe de todo este sofrimento. Mas sempre que precisei ela estava lá. Destemida, indômita, forte, atenta, brava, amorosa. Ao seu jeito, apontava e alertava sobre os caminhos e os perigos. Sem mimimizices, distribuía broncas (e alguns tapas no pé da orelha) para que fizéssemos o que considerava a coisa certa. Mesmo longe, depois das muitas brigas, sempre a senti ao meu lado, advertindo que a vida pode ser bacana se não tivermos medo de encará-la.
Sem saber, foi ela quem me ensinou a gostar de filmes. Chorávamos ao ver, na televisão pequena cheia de chuviscos, “Melodia imortal”, “Os girassóis da Rússia” e “Os canhões de Navarone”. Ah, também tinha as séries: “Combate”, “Perdidos no espaço”, “O túnel do tempo”, “Chaparral”, “Bonanza”.
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Somente deus sabe o tamanho da gratidão, do orgulho e do amor que carrego por minha mãe, Dona Leila, A Fera da Tijuca.
Livre pensar
Do jornalista Rodrigo Araújo:
“Arte conservadora é um passarinho sem asa. Um carro sem roda. Arte não precisa de complemento. Quem dá nome quer ser dono. Rotular é dominar.”
Do jornalista Marcos Nogueira:
“Alimento é algo que você engole por um buraco e descarta por outro. Não existe nada mais mundano. A comida, tal qual o sexo, proporciona alguns dos melhores momentos da nossa ridícula existência.”
Do filósofo grego Epícuro:
“Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, não é só conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida.”
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Do cantor e compositor Arnaldo Antunes:
“O futuro de uma nação não se faz com violência, se faz através da cultura, da educação, da pesquisa científica.”
Do apresentador Pedro Bial, sobre “Democracia em vertigem”:
“É um filme de uma menina dizendo para a mamãe dela que fez tudo direitinho, que ela está ali cumprindo as ordens e a inspiração de mamãe, somos da esquerda, somos bons, nós não fizemos nada, não temos que fazer autocrítica.”
E o Oscar vai para…
A incrível direção de “1917”? A inventividade de “Parasita”? A coragem de “Jojo Rabbit? O humor de “Era uma vez… em Hollywood”? A genialidade de “O irlandês”? A transgressão do “Coringa”?
Meu pitaco: vai dar “1917”, história brilhantemente contada pelo diretor Sam Mendes.