Há quase 27 anos, no dia 19 de setembro de 1993, Romário enlouqueceu o Maracanã. Aquele Brasil 2 x 0 Uruguai era a partida decisiva para ir à Copa de 1994, nos Estados Unidos. Já bem tarde daquela mesma noite, queríamos o depoimento de Johan Cruyff, o líder do Carrossel Holandês e técnico do craque brasileiro no Barcelona. O coordenador de reportagem de Esportes do jornal “O Globo”, Antonio Roberto Arruda, passa a mão no telefone. Disca vários números. Faz-se mistério. Faz-se silêncio. De repente, Arruda começa, numa mistura tosca de espanhol e português: “Don Johan, perdón pelo adelantado de la hora, pero en Brasil el fútbol é una paixão…” Cruyff nos disse, então, a frase que ganharia o mundo: “Romário é o deus da pequena área”. O resto é História com H maiúsculo.

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> Os idiotas somos todos nós

Desde pequeno aprendi que futebol é apenas um jogo. Um dia você ganha, outro dia perde ou empata. Um dia você é campeão. Outro, rebaixado. Um dia choramos. Outro dia, comemoramos. O jogo termina. A vida vai em frente. As contas estão à mesa para serem pagas. E o dinheiro é curto.

Desde pequeno aprendi a entender cada partida como uma novela ou um pequeno romance, com princípio, meio e fim, mas nada esquemático. Mocinhos e vilões. Protagonistas e antagonistas. O goleiro que engole o frango, o artilheiro insinuante, o ponta indolente e mascarado, o árbitro perseguido, o pênalti desperdiçado no minuto final. Nos estádios ou em casa, gente apreensiva à espera do desfecho. A vida segue seu rumo. As contas continuam na mesa. E falta dinheiro no bolso.

Desde pequeno aprendi a ver arte na habilidade dos craques. O jeito de correr, a elegância ao tocar na bola, o drible, a malícia, o jogo de corpo. Pelé, Jairzinho, Gérson, PC Caju, Cruyff, Beckenbauer, Platini, Maradona, Zico, Kempes, Sócrates, Falcão, Romário, Bebeto, Zidane, Ronaldos (o dentuço e o gordo), Iniesta, Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar.

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> O que ainda não sabemos

Desde pequeno aprendi a amar a festa das torcidas, a colorida democracia dos estádios. Masoquista que sou, quando o Botafogo levava um gol, gostava de admirar a comemoração rival. A gritaria tresloucada, a dança das bandeiras. Eu sofria, mas como aquilo era bonito.

Hoje, como explicar àquele apaixonado menino que treinos são invadidos por animais travestidos de torcedores? Como explicar que esses covardes, por conta de uma derrota, querem agredir jogadores e profissionais do futebol? Como explicar que esses imbecis muitas vezes são financiados pelos próprios clubes em todo o Brasil? Como explicar que a polícia não consiga identificar e prender esses selvagens? Como explicar o inexplicável, o intolerável, o inaceitável?

Na Copa de 1998 fui escalado para fazer uma grande reportagem sobre os hooligans. Com o medo maior do que o mundo, corri várias cidades francesas atrás dos vândalos. Para fechar a história, por sorte me deparei com Sir Bobby Moore, um gentleman. Puxei conversa e perguntei sobre o hooliganismo britânico. A resposta do lendário e amável capitão da seleção inglesa impregnou-se em minha memória: “Não falo sobre animal, falo sobre futebol.”

Para aquele menino, a paixão quebrou-se. O jogo ficou pobre e burocrático. A verborragia de técnicos e jornalistas especializados, insuportável. O humor e a leveza de uma boa discussão se perderam no tempo. Torcedores tornaram-se agressivos e irascíveis. O futebol foi tomado pela ignorância. E, bem lá no fundo, os idiotas somos todos nós.

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> Um livro é um livro é um livro

Sobre a modesta coluna publicada na edição passada, destaco dois comentários. Não carece citar nomes, mas os conteúdos são memoráves:

1 – “Teria este texto alguma coisa a ver com o Partido Comunista Chinês?”, indaga o primeiro.

2 – “Tu é uma cadela sedenta de ração estatal petista, que late, late e late e chora e chora e chora”, ataca o segundo.

Dois comentários que servem como retrato fiel do que se transformou o Brasil.

Corre nas redes antissociais a lista dos sete pecados literários:

1 – Gula – devorar um livro em poucos dias;

2 – Avareza – não emprestar livros;

3 – Luxúria – desejar um livro novo sem ter lido os que já tem;

4 – Ira – querer matar um personagem;

5 – Inveja – cobiçar o livro do próximo;

6 – Preguiça – enrolar para não terminar um livro; e

7 – Orgulho – achar que o gênero que você lê é o melhor.

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