Cena 1: O jogo mais brigado do que jogado termina empatado. No meio de campo, os gladiadores se cumprimentam, conversam, muitos deles são companheiros em times do exterior. Apenas um atleta se dirige ao vestiário sem falar com ninguém. 

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Cena 2: O repórter conta ao vivo o que vê, a confraternização dos guerreiros depois da partida. Ele afirma que todos estão lá, se abraçando, trocando afagos e camisas. Menos um, que se dirigiu sem falar com ninguém para o vestiário. 

Cena 3: Neste momento, uma palavra do narrador vaza no ar: “Idiota”, limita-se a dizer a voz sobre o jogador que não falou com ninguém e foi se esconder no vestiário.

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Nada a ver com o idiota do genial escritor russo Fiodor Dostoiévski, um personagem fantástico e bom. O idiota em questão nas três cenas acima é um craque do futebol brasileiro. Milionário e deselegante, arrogante e sem educação, malcriado e bobo, um “pirralho mimado”, como disse um comentarista esportivo na França.

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Tudo o que ele produz vira polêmica nas redes antissociais. Em pleno auge da pandemia da Covid-19, fez festa de fim de ano para os parceiros. Durante todo o período da doença, com 600 mil mortos no Brasil, sequer abriu a boca, ídolo que é, para condenar desmandos e negacionismos ou mesmo defender a vacinação.​

Vive num mundo de ética e comportamento extravagantes, o futebol. Respeito e cortesia são palavras que não fazem parte de seu dicionário. Debocha de adversários dentro de campo. Ficou mundialmente marcado e virou meme na Copa da Rússia, em 2018, por mergulhar e rolar no gramado, fingir dores, tentar ludibriar os árbitros (esquecendo-se que cada partida de futebol tem hoje 3.587 câmeras espalhadas pelo estádio). 

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Muitos anos atrás, num quadro da MTV, o comediante Marcelo Adnet fez paródia sobre um craque da Seleção Brasileira. O “jogador sincero” dizia:

“Nós estamos aqui para garantir o nosso. Eu mesmo não vou ao Brasil tem mais de oito anos. Trabalho na Europa, graças a Deus. Menos problema… Na verdade, não estou nem aí para o Brasil”. 

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O nosso idiota é o espelho fiel do Brasil de muitos idiotas, é o reflexo de quem comanda os rumos do país.

Viva a liberdade de expressão!

1) A charge acima, de nosso companheiro Zé Dassilva, é finalista do 43º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Ela foi publicada na edição de 26 de junho de nossos jornais e é o retrato do jornalismo independente e corajoso praticado pelas equipes da NSC.

2) O Nobel da Paz saiu para dois jornalistas: uma filipina e um russo, que lutam contra a mão pesada dos tiranos nos respectivos países. O prêmio valoriza o jornalismo profissional, ético, combativo, que não bajula autoridades. Em tempos obscuros, é uma importante vitória da liberdade de imprensa e de expressão.

Pra refletir!

Da escritora russa Liudmila Ulítskaia, autora do excelente “Meninas”:

Nem a história, nem a geografia possuem uma dimensão moral. É o homem quem a traz. Por vezes dizemos que os tempos são cruéis. Mas todos os tempos são cruéis, à sua maneira. E são, à sua maneira, interessantes. Um tempo cria certas feições nas pessoas, mas o que determina a feição do tempo?
Quando ler é a principal ocupação de uma criança, muitas das outras sensações e impressões se desvanecem.
Não tenho interesse em problemas, fenômenos, ideias, e sim nas pessoas que estão em contato com os problemas e com as ideias. O que não diz respeito às pessoas não me interessa.

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