Sempre revisitadas e amadas, minhas duas “bíblias” não se apartam de mim. Estão sempre na mochila de trabalho, na mala de viagem ou aos pés da cama. São livros aos quais recorro há muitos anos — esteja eu triste ou feliz, macambúzio ou zombeteiro. São eles “O Estrangeiro”, de Albert Camus; e “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke.
Continua depois da publicidade
O primeiro talvez tenha as frases iniciais mais famosas da literatura mundial. “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”. É assim que o franco-argelino Camus, ganhador do Nobel em 1957, abre este potente livro lançado em 1942.
Pelas cidades mundo afora, gasto tempo e energia em busca de edições de “O Estrangeiro” em todas as línguas possíveis. Apelo também aos amigos-viajantes. Catalão, leto, sueco, espanhol, alemão, italiano, finlandês, mandarim, butanês, coreano, francês. Quando consigo, vibro. Quando não, entristeço-me. Leituras? Perdi a conta, centenas. “O Estrangeiro” como presente aos amigos? Também perdi a conta, centenas de reais gastos com felicidade.
Continua depois da publicidade
Em janeiro de 1955, Camus escreveu: “Resumi ´O Estrangeiro`, há muito tempo, com uma observação que admito ser altamente paradoxal: ´Em nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral de sua mãe corre o risco de ser condenado à morte.` Só quis dizer que o herói do meu livro é condenado porque não joga o jogo”.
Sem spoilers. Para quem leu, vale mergulhar de novo nessas pouco mais de cem maravilhosas páginas. Para quem não leu, recomendo com toda a força de minha alquebrada alma e de meu combalido coração.
Chegamos à segunda obra-prima, o livro do tcheco Rainer Maria Rilke. “Cartas a um Jovem Poeta” é de 1929. Revela uma breve correspondência que ele manteve com o jovem Franz Kappus, entre 1903 e 1908. Kappus esperava dicas de um possível crítico. Rilke faz muito mais do que isso: tenta iluminar os passos desnorteados e inseguros do colega que aspira ser poeta.
Ali estão muito mais do que dicas literárias. Ali estão eternos ensinamentos. O livro é uma elegia à reflexão, à solidão, à tristeza, à coragem, ao desconforto, às transformações, ao silêncio, ao medo, à hesitação. A existência de deus, o valor do autoconhecimento e do contato com a natureza são temas também vasculhados e esmiuçados por Rilke.
Continua depois da publicidade
Em “Grande Sertão: Veredas”, Guimarães Rosa escreveu: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Já em “Cartas a um Jovem Poeta”, Rilke diz a Kappus: “Temos de aceitar a nossa existência tal como ela ocorre; tudo, mesmo o assombroso, tem de ser possível nela. No fundo, é a única coragem que se exige de nós, coragem para enfrentar o estranho, o extravagante, o inexplicável”.
Bem lá no fundo, é preciso agradecer a Guimarães, Clarice, Coetzee, Auster, Drummond, Machado, Amado, Borges, Cortázar, Ariano, Cora, Lygia, Conceição, Updike, Cecília Meireles, Quintana, Carolina Maria de Jesus, Shakespeare, Austen, Virginia, Dostoiévski, McEwan, Kundera, Camus, Rilke e tantos outras e outros.
Neste mundo virado de cabeça para baixo, dizimado pela estupidez, ganância e desumanização dos homens, são elas e eles — escritores e poetas — que nos permitem alguma sanidade, esperança, alegria e coragem para seguir em frente.
Que animal bizarro nos tornamos
A arte de simplificar
Tenho, sim, uma terceira “bíblia”. Chama-se “Como Escrever Bem”, do professor novaiorquino William Zinsser. Aqui o recado é bastante direto: simplifique, simplifique. “O segredo da boa escrita é despir cada frase até deixá-la apenas com seus componentes essenciais. Lutar contra o excesso é como lutar contra as ervas daninhas”, escreve Zinsser.
Continua depois da publicidade
Este livro também não se aparta de mim jamais.