“O Primeiro Sonho do Mundo” é um livro simplesmente iluminado da francesa Anne Sibran (editora Relicário). Seu mote é o encontro entre o pintor pós-impressionista Paul Cézanne (1839-1906), que sofre de catarata, e o oftalmologista Barthélemy Racine, que criou uma máquina capaz de remover, com precisão, o cristalino do olho. Seu recado é ainda mais direto: um convite a olhar para as coisas, a “colocar os olhos na paciência”.
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Os olhos na paciência. Os olhos no mar, nas montanhas, no céu, no sol, nas estrelas, nas cores, nas danças, no mato, nas crianças que brincam no chão, nos animais, nas frutas, árvores, nas mutações do dia e da noite. O olhar sem pressa, o gozo do estranhamento, o deslumbramento pela beleza mais intangível. Não aquele olhar de jecas “idiotistas”, que com seus celulares ultramodernos param para filmar o pouso de um helicóptero mequetrefe à beira de uma praia ou ficam se fotografando o tempo todo. Tem gente que veio ao mundo para destruir tudo em volta, diz sempre um amigo.
A certa altura, o francês Cézanne afirma: “Gostaria de redescobrir essas sensações que temos quando nascemos”. Por exemplo, a sensação de ver a mãe pela primeira vez — o que para a antropóloga Michèle Petit, também francesa, é a primeira visão que temos das belezas da vida.
Cézanne encontra muito de tudo isso em Kitsidano. Ela é uma jovem indígena americana, cega desde nascença, que se casou com o médico Racine. E aqui reside outro importante ponto deste potente e belíssimo livro. “A única riqueza do homem são, no fundo, os seus encontros”, escreve a autora. Ao conhecer Kitsidano, o pintor tem a possibilidade de reencontrar-se com o poderoso encantamento que a natureza, de todas as formas, nos oferece segundo a segundo.
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Cheguei à última linha de “O Primeiro Sonho do Mundo” às 7 da matina de uma segunda-feira. Lá fora o tempo e a folha voavam. A aborrecida e insistente rotina do começo da semana me aguardava. A brevidade e a fragilidade da vida a todo vapor. Em todas as partes do mundo as pessoas já apressadas, estressadas, sem sonhos, olhando para o chão, sem contemplar o céu, mais preocupadas em não ser atropeladas e derrubadas nas ruas.
Antes de correr para o banho, tive a sorte de ouvir o canto de alguns pássaros. Consegui vê-los sobre árvores de um prédio vizinho. Parei por alguns instantes para acompanhar aquela algazarra. Entendi tudo. Por alguns segundos pus os olhos na paciência.
O mundo em derretimento
Temos convivido, nos últimos dias, com uma beleza que nos seduz e nos assusta. As estonteantes cores do céu, no começo da manhã e ao fim da tarde, provocadas pelas queimadas que vêm da Amazônia (assunto de capa desta edição). Rios secam. Falta água em várias partes do mundo. O calor torna-se insuportável em pleno inverno. Cada vez mais pessoas estão morrendo. Mas, com argumentos imbecis, os negacionistas tentam relativizar, simplificar e negar o óbvio: o nosso planeta está em chamas e em pleno derretimento.