Ser torcedor do Botafogo é sinônimo de dor, angústias, dúvidas, ceticismo, descrença, desconfiança, incredulidade, pessimismo, derrotismo. É acreditar que tudo sempre vai dar errado, sempre vai terminar mal. Por isso, ser torcedor do Botafogo me faz ver o futebol com outros olhos — é quase uma bênção, uma dádiva para diminuir o sofrimento imposto pelos deuses da bola. Me distancio do jogo para ver, naquele campo com 22 atletas, uma forma de arte.
Continua depois da publicidade
Nunca fui a um estádio com camisa de clube ou da Seleção Brasileira. Nunca briguei para defender um jogador — fosse ele craque ou pereba. Jamais apreciei ganhar ou perder com gol roubado — não consigo ver charme na ilegalidade. Como não sou santo nem o homem de ferro, já xinguei algumas vezes a mãe do árbitro. De perto ninguém é normal, diz Caetano Veloso.
Perde-se, ganha-se. Futebol é apenas um jogo. Muitas vezes contaminado por bárbaros que vão aos estádios para despejar ódios, preconceitos, frustrações e violência sobre torcedores do outro time. Na Grã-Bretanha dos anos 90 do século passado, o hooliganismo foi destruído pela ação pesada do Estado, com leis duras e punições muito severas aos clubes cujos vândalos provoquem confusões ou mortes. Todos os estádios dos times de primeira e segunda divisões têm assentos para os espectadores. O resultado óbvio e ululante: o Campeonato Inglês é, hoje, o melhor do mundo.
No Brasil, é impossível esquecer, entre tantas outras brutalidades, o dia 8 de dezembro de 2013, quando torcedores do Athletico-PR e do Vasco brigaram na Arena Joinville. Ninguém morreu por milagre. Nos anos 1970-1980, frequentava o antigo Maracanã com outras 120 mil pessoas. Havia brigas, sim, entre criaturas mais exaltadas depois de algumas cervejas e com um sol de torrar os miolos. Cacetetes em punho, os policiais acabavam rapidamente com a bagunça. Hoje, esses idiotas travestidos de torcedores me afastam dos campos. Tenho medo de não voltar para casa.
Posso fazer aqui uma lista de caras que me fazem amar a arte do futebol. Dino Zoff, Pelé, Rivellino, Cruyff, Beckenbauer, Falcão, Zico, Maradona, Platini, Romário, Baresi, Rivaldo, Zidane, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Dentuço, Iniesta, Messi, Cristiano Ronaldo, Mohamed Salah. O tempo me faz esquecer nomes e cometer injustiças.
Continua depois da publicidade
São caras que, cada um a seu jeito, me ensinaram a valorizar coisas boas neste mundo completamente tresloucado. Honestidade, jogo limpo, superação, estoicismo, habilidade, companheirismo, alegria, paciência, tolerância, beleza, respeito. Acima de tudo, respeito. Obrigado, Senhor Futebol, pelas lições de vida.
Vem aí o Catarinão
O ano passado foi difícil para os times catarinenses. Crises financeiras, rebaixamentos, confusões… O Brusque salvou-se, com o acesso à Série C do Brasileirão. Que 2020 seja mais sereno, a começar pelo Catarinão. Respeito acima de tudo, dentro e fora dos gramados.
Pequenas tiradas
De Jason Farago, crítico de arte do The New York Times: “Um bárbaro é alguém que olha para a cultura e não enxerga nenhuma beleza. Um bárbaro sonha apenas em provocar dor.”
Da cantora Ângela Ro Ro: “Eu amo multidão, mas só de um jeito: eu no palco e a multidão me vendo.”
Do escritor Laurentino Gomes: “Uma sociedade ou um país que não estuda história é incapaz de entender a si mesmo porque desconhece suas raízes. Como não sabe de onde veio, provavelmente também não saberá o que é hoje e o que será no futuro.”
Continua depois da publicidade
De Chico Buarque, na música “O futebol”: “Para estufar esse filó/Como eu sonhei/Só se eu fosse o rei.”