Em passos de formiga, avança no Brasil a vacinação contra a Covid-19. Apesar de tantos absurdos – a lentidão, os desmandos, os erros, os desgovernos nas três esferas executivas, os negacionismos, as denúncias, ministros e militares incompetentes –, pode-se ver uma tênue luz lá no fim do túnel. O nosso velho-novo normal está ali à frente.

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Sejamos otimistas e sonhadores. Como será ele, o nosso velho-novo normal? Teremos um Natal com nossos parentes, troca presencial de presentes desnecessários e o reencontro com o tio-mala que faz piadas patéticas? Vamos pular o Carnaval em 2022 fantasiados de Pazuello Aboballhado?

Poderemos voltar a viajar ao exterior com a imunização completa e o passaporte da vacina? (Vários países, como Canadá e França, estão se reabrindo ao mundo. Afinal, turismo traz gente e dinheiro.) Voltaremos tranquilamente aos estádios de futebol para admirar nossos perebas? Retornaremos aos cinemas, aos shows, aos teatros? Estaremos livres para trocar os insuportáveis soquinhos pelos abraços em nossos amigos, mesmo aqueles que fizeram tudo errado na pandemia?

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Esta retomada servirá como uma reeducação. Será como aprender a andar e a comer novamente. Quando tudo começou, teóricos “moderninhos” e especialistas em autoajuda garantiam que sairíamos melhores dessa desgraça. Mais solidários, respeitosos, mais cuidadosos, sociáveis, cidadãos melhores, mais humanos.

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Erraram em suas toscas suposições e delírios. Demos (e ainda damos) show de irresponsabilidades, egoísmos, descrenças, preconceitos, falta de empatia, intolerâncias, hostilidades, cóleras, insensibilidades, incredulidades, cismas. Mas a luz está ali, bem ao fundo daquele túnel que vai dar num cemitério de 550 mil vítimas.

“O que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano”, escreveu Clarice Lispector. Estamos completamente distantes disso. Mas uma coisa é certa: jamais seremos os mesmos, com tudo de bom e ruim que isso implica.

Reflexões sobre nós

Da escritora belga Marguerite Yourcenar:

Nada reaproxima tanto o ser humano como o fato de sentirem medo juntos

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Da escritora brasileira Hilda Hilst:

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais

Do escritor brasileiro Caio Fernando Abreu:

Só eu sei que cheguei à humildade máxima que um ser humano pode atingir: confessar a outro ser humano que precisa dele para existir

Do pensador francês Voltaire:

A única diferença entre um tigre e um ser humano é que o primeiro mata e estraçalha por fome e instinto, enquanto o segundo mata por parágrafos

Pequenas pérolas

> Se tem algo que precisa ser visto, é “Sudestino”, novo vídeo do Porta dos Fundos. Divertido e imperdível.

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> Se tem algo que precisa ser lido, é “Lili”, de Noemi Jaffe. Lírico e inesquecível.

> Se tem algo que precisa ser ouvido, é “Utopian Ashes”, de Bobby Gillespie e Jehnny Beth. Disco tocante sobre o amor (ou o fim dele).

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