O nosso Jornal do Almoço apresentou esta semana uma série de reportagens sobre como as pessoas usam, de forma criativa e produtiva, o tempo livre durante o confinamento. Cidadãos que praticam o esporte do senso de coletividade, respeito ao próximo, amor à vida. Conheço gente que começou a tocar piano ou guitarra, outros foram estudar mandarim ou russo, alguns descobriram dotes culinários. 

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Um amigo decidiu fazer fotos remotas de gente isolada por todo o mundo, o resultado é emocionante. Outro veste todo o uniforme (até as luvas) e faz treinos de goleiro na sala, com a ajuda dos filhos. Tudo para driblar, um pouco, a inacreditável experiência de ficar trancado em casa. Tudo para escapar à maluquice em que se transformou este país, que caminha a passos largos para 300 mil mortes pela Covid-19 e a passos de formiga para a vacinação de sua população.

(O Brasil tem agora seu quarto ministro da Saúde. Aparentemente nada mudará, pois para ser ministro da Saúde é preciso somente um requisito: estar alinhado com as sandices e os negacionismos do excelentíssimo senhor presidente da República.)

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Voltemos ao tema. No meu caso, tento aprender a escrever contos, pequenas novelas, crônicas. Para um ser humano acostumado à linguagem objetiva do jornalismo, o contar uma história com a cadência, o frescor e o vagar necessários, o delirar, o ser infiel e trair memórias, o não ter medo dos problemas impostos pela trama, o traçar e estressar o perfil psicológico dos personagens, o ser conciso mesmo que isso não exija frases curtas… são muitos os desafios. 

Criar um texto ouvindo uma sinfonia dodecafônica, vendo uma cena da coreógrafa alemã Pina Bausch, a imagem de um argelino voltando para casa após a tentativa fracassada de viver em outro país, a construção passo a passo das cenas de um enigmático crime… são enormes os percalços.

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Itamar Vieira Júnior, autor de “Torto Arado”, diz que “para começar a escrever basta escrever sem parar”. Vêm o lampejo, a ideia, a pulsação, as perguntas sem respostas, a sensibilidade para a alteridade, o se deslocar para o lugar do outro. “Tudo cabe na literatura”, Itamar acrescenta. Tudo parece fácil, mas esse exercício é penoso, penso alto.

A escritora britânica Virginia Woolf disse um dia: “Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”. O alemão Goethe afirmou: “Escrever a história é um modo de nos livrarmos do passado”. E o italiano Cesare Pavese foi além: “É bom escrever porque reúne as duas alegrias: falar sozinho e falar a uma multidão”.

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Trancafiado no apartamento, paro toda hora para anotar memórias, palavras, nomes ou uma frase que, presunçosamente, acredito ser genial. Não tenho pretensão alguma de me tornar um escritor. Mas nas conversas com a generosa escritora Andrea del Fuego e na escrita criativa tenho encontrado a leveza em tempos de cólera.

Para refletir

Do biógrafo Walter Isaacson:

A melhor maneira de resistir aos ataques à ciência é celebrar o trabalho dos cientistas, mostrando quanto há de heroísmo e altruísmo em sua busca pelo progresso.

Da escritora Joan Didion:

Acho que é aconselhável continuarmos aceitando as pessoas que um dia fomos. Caso contrário, elas vão aparecer sem avisar e vão nos pegar de surpresa, batendo sem parar na porta da mente às quatro da manhã de uma noite maldormida, e exigindo saber quem as abandonou, quem as traiu, quem vai fazer as pazes.

Do escritor Robert Louis Stevenson:

Temos tanta pressa de fazer algo, escrever, amontoar bens e deixar ouvir a nossa voz no silêncio enganador da eternidade que esquecemos a única coisa em relação à qual as outras não são mais do que meras partes: viver.

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