Na dedicatória de seu belo livro “Amanhã Tardará”, o cearense Pedro Jucá registrou: “Para que você sempre encontre o tempo de olhar para trás”. Sem deixar de viver o conturbado momento, perdendo o pouquinho que me resta da fé e vislumbrando algum fiapo de esperança na humanidade, estou sempre bisbilhotando o passado. “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”, escreveu o poeta Mario Quintana.
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Por onde andarão Ricardo, Leomar, Tinoco, Pig e Ziribiu, meus grandes amigos de jogos de futebol descalços nas ruas, pipas lá em cima e dedos (das mãos e dos pés) destroçados pelo cerol e por paralelepípedos? Eles vivem, foram felizes? Como se desdobraram suas histórias? Nos perdemos pelos caminhos de Robert Frost, como diria o cronista Rubem Alves.
Como não sentir saudade do colo de minhas avós e do mau humor dos avôs? E os fins de domingo, ao lado de meu pai (Augusto), acompanhando um programa esportivo na televisão e ouvindo, ao fundo, os atabaques de uma cerimônia religiosa de matriz africana? Aquele som está em minha cabeça até hoje — e como me encanta.
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Nas férias, minha mãe (Leila) nos levava, eu e minhas irmãs Sandra e Catia, à praia diariamente. Enchíamos o Fusquinha cor-de-abóbora dos apetrechos de verão e saíamos em busca de aventura. A minha preferida: bagunçar a areia e catar o emerita brasiliensis, o popular tatuí. Ele era um indicador da qualidade ambiental de uma praia. Depois ficava delicioso no almoço, frito com um pouco de alho, óleo e sal (até o Rodrigo Hilbert sabe disso).
No mesmo Fusca, Leila me levava semanalmente ao hospital público, para cuidar de um problema no ouvido direito. Saíamos de casa de madrugada, para não enfrentar filas. Guerreira infatigável, brigava com enfermeiros e médicos, sempre exigia o melhor para mim. Mulher dura na queda, valente e corajosa.
E as festas juninas com suas danças, brincadeiras, jogos e balões colorindo o céu?
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E a diversão inocente no Bloco da Vaca nos carnavais? E os primeiros bailes no Braz de Pina Country Club, ao som de James Brown, Jackson Five e Commodores? E as primeiras paqueras, sempre tentando neutralizar a timidez que assustadoramente me dominava? Feinho, desarrumado e desajeitado, chamar a moça para dançar, o medo quase paralisante de receber o toco (o que aconteceu muitas vezes).
Os primeiros sinais da paixão por livros. Os primeiros filmes, os primeiros discos. Tim Maia, Roberto Carlos, Raimundo Fagner, Elis Regina, Chico Buarque, Gal Costa, Bethânia, Caetano, Milton, Stones, Beatles, Elton John, Dionne Warwick, Clara Nunes, Martinho da Vila.
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O piano abandonado no canto. O acordeão vermelho de minha mãe. Sandra sonhando em ser chacrete do Chacrinha. O amor platônico e secreto por uma prima. (Até hoje ela não sabe disso. Ou se percebeu, jamais demonstrou ou revelou.) A sofrida paixão pelo futebol e pelo Botafogo.
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Nem tudo são flores. Vivíamos também os conflitos de Leila e Augusto, às vezes violentos. Eles faziam parte daquele cotidiano numa rua sem saída do subúrbio carioca. As discussões desenhavam o que não desejávamos: a separação, óbvia e iminente, de nossos pais.
A vida se desenrolava pouco a pouco, no tempo do tempo, ainda sem muita pressa e estresse. Como não revolver tudo isso? Volto sempre aos tempos de menino para entender o ser humano que me tornei, com as poucas virtudes e as inúmeras manias, perturbações, fraquezas, idiossincrasias e paradoxos que carrego na bagagem. É verdade, quase sempre chego a lugar nenhum. Mas a minha busca é incansável e inegociável.
É como afirmou a escritora belga Marguerite Yourcenar: “Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana”.
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