Como seria o Brasil se tivesse, hoje, um árbitro de vídeo acompanhando o nosso cotidiano, 24 horas, dia após dia? Foi o que passei a me perguntar depois de ler a coluna desta semana, no jornal “O Globo”, de PC Caju. “Este país precisa ser analisado pelo VAR. De repente ele manda voltar tudo, recomeçarmos do zero”, escreveu o ex-craque tricampeão mundial de futebol, que hoje se divide entre Rio de Janeiro e Florianópolis.

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É uma questão inquietante. Um grande estúdio com milhares de câmeras, homens e mulheres austeros examinando, estudando, revisitando, reconsiderando tudo o que acontece ao nosso redor. Quase uma espécie de “O show de Truman”, brilhante filme de Peter Weir. Também lembrando “1984”, livro clássico e sempre atual de George Orwell.  Todos nós sob a constante vigilância das câmeras e de seus comandantes. Inquietante e aflitivo.

Puristas, simplistas e reducionistas dirão que o VAR seria a salvação do Brasil. Poderíamos ter, então, um país sem corrupção, sem violência, sem nepotismos, sem radicalismos, sem truculências, sem preconceitos, sem bandalhas e roubalheiras, sem racismo e, alvíssaras, até sem fome.

Mas que nada, não precisamos de um Big Brother, nem de um gigantesco VAR. Não precisamos de um grande irmão a avisar que zela por nós, a alertar que nos observa atentamente e, cuidado!, não podemos vacilar.

O Brasil precisa de educação, formar seres humanos que respeitem os preceitos mais básicos da convivência, construir um povo mais bem educado e preparado para o futuro. Precisa fazer sua gente tornar-se menos individualista e mais humanista, mais preocupada com as dores do vizinho que mora ao lado.

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Não precisamos de VAR. Nossos estados e cidades precisam de políticas eficientes e inteligentes de segurança pública, transporte, mobilidade urbana, saúde, inclusão social. Precisamos investir numa ciência de primeiro mundo. Precisamos, em pleno século 21, nos desgarrar dos “jeitinhos” e nos transformar num país adulto.

Sem tudo isso – e com a divisão e a radicalização atuais –, nos tornaríamos a grande desmoralização mundial do VAR.   

Esperança

Semana passada alguns leitores sugeriram que eu fosse morar na adorável e invernosa Islândia. Tudo porque revelei saber fazer o prato mais tradicional de lá e me candidataria ao posto de embaixador em Reykjavik.

Era apenas brincadeira. Mas alguns levaram a sério, me ofenderam, desejam que eu vá embora. Devem fazer parte do mesmo grupo ranzinza e antidemocrático que repudiou a presença de uma jornalista e de um sociólogo na Feira do Livro de Jaraguá do Sul.

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Mas vou ficar por aqui, acompanhando e cobrando as promessas feitas por nossas autoridades municipais, estaduais e federais. Ainda tenho esperanças de que seremos um país decente.

Pelo mundo

Aliás, o descortês corte de Miriam Leitão e Sérgio Abranches levou a Feira de Jaraguá do Sul ao mundo. O escritor português Valter Hugo Mãe escreveu: “A retirada do convite ao casal é claramente uma censura das suas vozes, o que levanta a hipótese de transformar encontros literários em debates sem contraditório.”