Todos os fins de tarde era o mesmo ritual. A mãe nos reunia para ouvir, no rádio mixuruca, a Ave Maria. Juntávamos num cantinho da cozinha, o áudio arranhado, a água benta posta num copo de geleia. Era irremediável: a epifania da música de Bach e Gounod me fazia chorar, ao lado de minhas irmãs Sandra e Catia.
Continua depois da publicidade
Todas as noites de domingo era o mesmo ritual. Minha mãe e minhas irmãs iam cedo para a cama. O pai e eu assistíamos a programas de futebol na televisão também mixuruca. De um terreiro distante sobressaía o som abafado e ritmado de tambores e atabaques – aquilo me fazia viajar ao outro lado do Atlântico. O sono me abraçava vagarosamente.
> Clique aqui e receba as principais notícias de Santa Catarina no WhatsApp
Minha vida é marcada por odores, sons, linhas de costura jogadas pelo chão. O cheiro gostoso do bolinho de carne. Roberto Carlos na vitrola sem parar. As pipas espalhadas pelos quartos. Meus pais brigavam – os sons e as tensões dos conflitos me entristeciam. Com seus cabelos longos, Sandra imitava as chacretes do Chacrinha. Catia era uma pequena bolachuda, a caçula inquieta.
A vida era pacata, leal, agradável, no bairro simples do subúrbio do Rio de Janeiro. A mansidão da rua sem saída era o mundo. A algazarra dos amigos, eles estavam todos ali naquele pequeno pedaço da Terra. Tinoco, Ricardo, Leomar, Ziribiu, os Irmãos Portuga, Pedro. Minha primeira paixão também estava lá. Fracassei. Ela não queria nada com um garoto tímido que usava um topete exageradamente projetado pela mãe.
Continua depois da publicidade
> Leia outras colunas de César Seabra
Nas férias de verão, o frescor do mar, do sol, do sal, da areia, das ondas. Todos os dias acordávamos às cinco da matina. O Fuscão cor-de-abóbora ficava mais apertado com nosso mau-humor. A mãe tinha uma liturgia: o destino era sempre um segredo. Paquetá, Ilha do Governador, Ipanema, Barra da Tijuca, Leblon, Copacabana. O astral mudava na primeira visão da praia. A alegria se apoderava do Fuscão. O azul dos olhos da mãe brilhava. Voltávamos cansados para casa, pensando na surpresa do dia seguinte.
Cresci com os gibis e os livros. Adorava entrar numa banca de jornal, queria comprar tudo, acumular tudo. Magali, Mônica, Donald, Tio Patinhas, Cebolinha, Cascão, Magali & Cia me fizeram amar a leitura. Eles eram meus companheiros, me encorajavam nas visitas semanais ao hospital, aonde a mãe me levava, no mesmo Fuscão cor-de-abóbora, para cuidar de um grave problema no ouvido direito. Foram dez anos de consultas e cirurgias. Ela ali, ao meu lado, revelando seu amor inegociável pelo filho.
> Catarinense cria aplicativo que recompensa quem ajuda os outros
O que seríamos sem as memórias? Estou a poucos dias de completar 60 anos. Carrego coragem e temores, alegrias e tristezas, conquistas e dores, verdades e mentiras, prazeres e vergonhas. Choro como o menino do subúrbio carioca. Vejo as pipas bailando no céu. Sinto saudades da rua sem saída e toda sua inocência. Sonho com as peripécias de meus amigos das histórias em quadrinhos. A Ave Maria e o som dos atabaques reverberam em minha alma. O Fuscão ainda está na garagem, a água benta, o sol, o mar, o sal, a areia, as ondas, os tatuís…
> Monitor da Vacina: confira como está a imunização com o coronavirus
Sessenta anos. Vejo a Sandra, empolgada, dançando sem parar. Vejo a Catia engatinhando, desengonçada, pela casa. Ouço o pai contando histórias de velhos craques do futebol. Sinto a força de todo o amor de minha mãe em meu coração.
Continua depois da publicidade
Dica:
“Agente Duplo”, documentário chileno que pode ser visto no Globoplay, é uma preciosdade em tempos de cólera: cheio de amor, sensibilidade, empatia, humanismo. Totalmente imperdível.
Para refletir:
Da prefeita de Montevidéu, Carolina Cosse:
A democracia é como a saúde. Quando você está com boa saúde, crê que está tudo bem e que nada vai te acontecer. Até que algo te acontece. Por isso é preciso que nos cuidemos e façamos os nossos exames com regularidade. A democracia também funciona assim.
Da cantora Elza Soares:
Tudo vai passar. Tudo passa. O bom passa, o ruim passa também.
De J.M. Coetzee sobre sua mãe, no livro “Infância”:
Não pode imaginar que ela morra. Ela é a coisa mais sólida em sua vida. É o rochedo que o sustenta.
Continua depois da publicidade
Leia também:
> Em um ano de pandemia, saiba como SC colaborou cientificamente na luta contra o coronavírus