Arte NSC
(Foto: Arte NSC)

Não é difícil enlouquecer hoje em dia. Sobram motivos. A omissão e a desorganização dos governantes. As mortes, o choro sem despedidas. A distância de quem se ama. A insana defesa de remédios sem um pingo de eficácia comprovada pelo conhecimento científico. O desprezo e a descrença na ciência. A atmosfera de ceticismo. O desencanto e o terreno aberto para patifes negacionistas. Motivos não faltam. Mas aí vem o poder da arte.

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E a arte vem em várias formas. Em música, livros, filmes, séries, contos, crônicas, romances, humor, em lives. Ela vem poderosa, mesmo num país que vive uma cruzada contra a educação e a cultura. No meio do caos, dediquei preciosos minutos de relaxamento ao consumo de cultura. Arrependimento zero.

> E daí?

Em doses homeopáticas, maratonei os longos “Apocalipse Now”, “Era Uma Vez no Oeste”, “Era Uma Vez na América” e “O Bom, o Feio e o Mal”- os últimos três do cineasta italiano Sergio Leone com música do genial conterrâneo Ennio Morricone, morto dias atrás. Sempre antes de dormir é obrigatório dar algumas risadas com a mordacidade de Larry David em “Segura a Onda”, série com dez temporadas da HBO. O sono fica mais leve, o efeito é garantido.

Na literatura são muitos os amigos estrangeiros que me acompanham. O russo Dostoiévski, o francês Camus, o japonês Inoue, o italiano Calvino, o americano Teju Cole, o britânico McEwan, o turco Pamuk, os argentinos Borges e Silvina Ocampo, a ucraniana Svetlana Aleksiévitch, o espanhol Javier Marías, o moçambicano Mia Couto. Entre os brasileiros a lista vai de Cristovão Tezza, Bernardo Carvalho, Ana Paula Maia, Itamar Vieira Junior, Tina Vieira, Marcelo Maluf, Joca Terron, Reginaldo Pujol Filho, Milton Hatoum, Guimarães Rosa. Esses caras enchem o coração e a alma de reflexões – e aqui a gratidão à livraria Mandarina, de São Paulo, que via correio abasteceu a casa de sonhos e beleza.

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(Confesso: li poucos livros por inteiro. Optei por abrir páginas aleatoriamente e apreciar trechos de todos esses autores. Foi uma experiência inovadora.)

Já na música meu gosto pode ser classificado de antiquado, careta para as “mudernices” de hoje. Sou do time que ouve disco até que ele fique arranhando e empenado. Meus parceiros, então, foram poucos: Strokes, Fiona Apple, Adriana Calcanhoto, Paul Weller, Bob Dylan, Lana Del Rey, Bach, sempre a infalível beleza de Bach. Sem falar nas divertidas lives de Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lulu Santos, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Simone. Teve até Fábio Júnior no Dia dos Namorados, mas ainda falta Caetano Veloso, que vive a quarentena enrolado com as paçocas.

É preciso reconhecer que a arte nunca foi tão importante. O humor também. Seria impossível viver esses dias loucos sem o Porta dos Fundos, o Sensacionalista, Fábio Porchat, Marcelo Adnet, a antiga Escolinha do Professor Raimundo, reprisada no canal pago Viva. “O humor ajuda a tornar a realidade mais suportável”, disse Gregório Duvivier, que brilha na HBO com o “Greg News”.

> Escola de vida

Não é difícil enlouquecer hoje em dia. Motivos sobram. Mas aí vem o poder da arte para nos redimir em tempos sombrios de pandemia, negacionismos e idiotia. Longa vida à arte.

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Do escritor angolano José Eduardo Agualusa: “O combate antirracista é um combate pela democracia – e vice-versa. Não é possível ser-se democrata sem se ser igualmente antirracista. Não é possível ser-se antirracista se não quisermos, ou não soubermos, defender também a democracia”.

Do escritor baiano Itamar Vieira Junior: “Escrever tem sido doloroso, porque exige uma concentração desviada pela falta de previsibilidade, já que por aqui a situação saiu do controle. Mas também é necessário, é imperioso, e vou equilibrando a ambiguidade das motivações”.

Do escritor japonês Yasushi Inoue: “Que tolo é o ser humano por desejar a qualquer custo que outros o entendam”.