Em tempos de negacionismos, extremismos, revanchismos e negativismos, os Jogos Olímpicos do Japão trazem de volta o fenômeno do pachequismo. Onde surgiu isso? Em 1982, na Copa da Espanha, quando o Brasil de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior & Cia era o grande favorito ao título mundial. Pacheco era o personagem de uma publicidade na televisão – ele gritava, esperneava, cantava, enchia a paciência de deus e o mundo. Uma mala insuportável. Com ele, nascia esta importante corrente do pensamento filosófico moderno: o pachequismo.
Continua depois da publicidade
> Receba as principais notícias de Santa Catarina pelo Whatsapp
Torcedores, narradores e comentaristas doentios e quase-cegos passaram a ser chamados de “pachecos”. Graças a eles foram criadas frases e variantes como esta: “Ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor”. Para eles não há adversários do outro lado. Seja o “esporte” que for (sinuca, frescobol, biriba, dama, dominó, peteca, pique-esconde, pingue-pongue, bocha, capoeira, pebolim, futevôlei, pega-ladrão), os brasileiros são imbatíveis. Não se admite derrota: é injusto ou roubalheira (cadê o VAR, seu juiz?).
Tenho vários e queridos amigos “pachecos”. Dessa vez me rendi. Sinto-me um pachequista juramentado ao varar madrugadas, acompanhar nossos atletas, gritar na esgrima, no handebol, no vôlei de praia, no triatlo, no ciclismo, no badminton, na ginástica artística. A emoção do surfista de ouro Ítalo Ferreira; as pratas dos skatistas Rayssa Leal e Kelvin Hoefler e da ginasta Rebeca Andrade; e os bronzes dos judocas Mayra Aguiar e Daniel Cargnin e o do nadador Fernando Scheffer. Chorei com todos eles. (Esta coluna foi fechada na começo da manhã de quinta-feira, 29 de julho, quando o Brasil tinha sete medalhas conquistadas).
Continua depois da publicidade
> Confira outras colunas de César Seabra
Na cobertura da TV Globo, o slogan diz que os Jogos de Tóquio despertam o melhor de nós. Mas vem no pacote o pior de nós, somos flagrados torcendo e vibrando por derrapadas e tombos alheios. Coisas de “pacheco”.
Minha transformação tem uma descomplicada razão. Vivemos num país cujo governo cultiva as políticas da destruição e do ódio, onde já perdemos mais de 550 mil pessoas para a pandemia da Covid-19, onde a cultura, a educação e o esporte não são dignamente valorizados. Vivemos tempos nefastos, sombrios, coléricos. Precisamos de Fadinhas e Ítalos para nos tirar da prostração, do abatimento, da desesperança. Necessitamos do carisma de Douglas Souza (craque do vôlei) e da alegria da Marta (deusa do futebol) para que possamos escapar do entorpecimento e da loucura.
> Confira notícias e quadro de medalhas das Olimpíadas de Tóquio
Ser “pacheco”, agora, é questão de honra. É sinônimo de respeito ao próximo e à vida, à diversidade e ao humanismo. É sentir amor por um país cujo futuro é obscuro. Até 8 de agosto vencerei as horas de sono, serei fervoroso adpeto do pachequismo. Não tentem me controlar. Pena que todo o carnaval tem seu fim.
Nem tudo são flores
Nunca imaginei skatistas na disputa acirrada por medalhas. Em minha inocência, o skate é lugar para improviso, diversão, alegria, lazer, sem tornar-se fardo mental. Por isso, talvez nunca tenha ouvido falar em confusões neste esporte. Pois bem, ganhamos a primeira medalha em Tóquio e o skate brasileiro entrou em crise, com acusações e cancelamentos. Como diria um “pacheco” debochado, não tem mais bobo no mundo do skatismo.
Continua depois da publicidade
> Atleta catarinense chora ao conhecer pista de atletismo das Olímpiadas: “lágrimas de alegria”
Aos 13 anos
Quando Rayssa ganhou a medalha de prata, a pergunta correu nas redes antissociais: o que você estava fazendo aos 13 anos? Lembro da Copa de 74, na Alemanha. Durante os jogos do Brasil era certeiro: faltava luz. O radinho de pilha nos salvava. Por onde andarão os amigos daqueles tempos? Sinto saudade das dúvidas, dos medos e do frescor da adolescência.
Pra refletir
Do argentino Alberto Manguel
“Não costumo procurar novidades e excitação. Não busco satisfação em aventuras, e sim na rotina. Sinto prazer naqueles momentos em que não preciso refletir sobre os atos cotidianos. Gosto de atravessar um cômodo com os olhos fechados, sabendo onde tudo se encontra”.
Leia também:
> SC tem quatro cidades entre as mais ricas do país; saiba quais
> Mapa de risco do coronavírus terá novos critérios em Santa Catarina