Corria metade dos anos 1990 do século passado. O indômito repórter chega à redação esbaforido e exaltado. Sonhava com a manchete do jornal, pois havia acabado de entrevistar um dos criminosos mais procurados pela polícia do Rio de Janeiro. Mas o traficante fez uma exigência: a reportagem deveria ser publicada somente se o identificasse pelo apelido, aquele com o qual ele aterrorizava a comunidade pobre onde vivia. A resposta do editor que vos escreve é direta: “Não faço trato com bandido. Ou publicamos com o nome verdadeiro ou nada”. A história faz parte do ótimo “Abusado – O dono do Morro Dona Marta”, livro do jornalista Caco Barcellos.
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Muitos anos depois as coisas pouco mudaram. Bandidos continuam se escondendo atrás de apelidos, julgando nos tribunais paralelos, condenando e matando. Assim como covardes se proliferam nas redes antissociais, com nomes e perfis falsos. Tentam se camuflar no possível anonimato tecnológico, cada vez mais frágil, para ameaçar instituições, caluniar, injuriar, difamar a honra de pessoas que pensam diferentemente deles. Não precisam sequer ser financiados por empresários, usar robôs ou integrar gabinetes da cólera. Estão por aí e estimulam o ódio em simples portagens de simples mortais, independentemente do tema.
O escritor americano Colson Whitehead, ganhador de dois prêmios Pulitzer e autor dos brilhantes “O reformatório Nickel” e “The Underground Railroad – os caminhos para a liberdade”, disse recentemente: “Os seres humanos são terríveis: nós inventamos todos os tipos de razões para odiar as pessoas”. Ele falava do racismo e das lindas manifestações antirracistas em todo o mundo. Mas faça o exercício de transportar o pensamento de Colson para o seu dia a dia e tudo fará sentido. Se você não foi atacado e odiado por ter feito algum comentário, ou está quieto em seu canto ou você é um sortudo E.T. em tempos de pandemia e idiotia.
Vamos lá, escolha o assunto – capitalismo, comunismo, religião, futebol, sexo, samba, dinheiro, quarentena, distanciamento social. E prepare o esqueleto para as pedradas. Os comentários são contaminados de hostilidades e preconceitos – misoginia, homofobia, xenofobia, racismo, intolerância. Tem de tudo – insensatez, ódio, agressividade, raiva, destemperança. Em resumo, a total falta de empatia. A educação é quase zero, a discussão inteligente se dissipa, o combate digital ganha força.
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O popular historiador Leandro Karnal, no livro “Todos contra todos”, de 2017, disse: “A internet não criou os idiotas, mas deu energia e proteção para o ódio dos covardes”. Pusilânimes temem o enriquecedor embate de ideias, preferem os xingamentos. Pusilânimes não respeitam os contraditórios, preferem se impor pela força. Pusilânimes não têm coragem, preferem se esconder em nomes falsos. Pusilânimes são tão somente pusilânimes.
A derrota de Djoko

O sérvio Novak Djokovic é um espetacular e campeoníssimo tenista. Mas deu um triste exemplo ao mundo, ao esnobar a pandemia, organizar um torneio no país natal e ser contaminado pela Covid-19. O desprezo pela ciência e a falta de empatia lhe impuseram uma avassaladora derrota.
Do eternamente divertido José Simão: “Em Washington, Weintraub vai ser analfabeto em dois idiomas. Ele é zeroglota.”
Do eternamente rebelde Tom Zé: “Numa ditadura pensar é crime.”
Do eternamente grande Guimarães Rosa: “O mais importante e bonito, do mundo, é isto:/que as pessoas não estão sempre iguais,/ainda não foram terminadas,/mas que elas vão sempre mudando.”
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