No Réveillon de 1994, quase 30 anos atrás, visitei Paris. Naquela cidade, muito mais mágica no inverno e nas festas de fim de ano, conheci Antônio através de um amigo em comum. Nascia ali uma daquelas amizades que dão sentido à vida.

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Eu o chamava de meu “Irmão Parisiense”. Qualquer viagem que fazia à Europa, arrumava uma maneira de passar por lá. Já amava Paris. Com o novo amigo, passei a gostar ainda mais.

O mineiro Antônio era brilhante fotógrafo de uma agência europeia, técnico, criativo, arrojado, divertido. Sujeito sensível, inteligente, generoso, vivaz, irônico. Também escrevia brilhantemente bem. Odiava a burocracia cotidiana da França. Adorava polêmicas, discussões que se estendiam noite adentro naquele lindo apartamento na pequena Île Saint-Louis.  

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Tínhamos muita coisa em comum. O amor pelos livros, pelas artes, pelos textos bem feitos, pelas imagens bem captadas, pelo mundo das ideias, pela vida política, pelo vinho, pela boa gastronomia, pelo Botafogo. Passávamos horas falando das frustrações e dos sofrimentos que tínhamos com o futebol e o nosso time maldito.

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Antônio era casado com C., adorável, generosa e lindíssima francesa. Tiveram um filho: o Bebê L., que evidentemente se tornou um apaixonado botafoguense. C. sempre me enchia de dicas maravilhosas de Paris. Cinema exposições, ruas, cafés, passeios, mercados, docerias, livrarias. Nunca tinha erro. 

Como uma família, adorávamos frequentar a Brasserie l’Isle Saint-Louis. Antônio era rei lá. Sempre pedíamos o steak tartare — “fait avec amour”, reforçava Antônio. E lá vinha o prato, o steak tartare em forma de coração. Todos os garçons tinham apelidos. “Mortinho”, “Fred”, “Asa”. “Mortinho, cadê o meu beaujolais texano (Coca-Cola)?” “Fred, traz o azeite, por favor”.

Os chamávamos assim mesmo, em Português. Bebê L. se divertia, às gargalhadas e atacando as crocantes batatas fritas.

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Depois do jantar, já no apartamento, era hora de futebol no corredor ou de brincarmos de cavaleiros. Éramos os “Chevaliers da Ilha”, Bebê L. e eu – o Tonton César (Tio César). Tínhamos cavalos, armaduras e espadas. Assim normalmente acabava mais um dia inesquecível em Paris.

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São tantas as memórias daqueles tempos. Duas nunca saem de minha cabeça.

Aquele trois à zéro

A primeira aconteceu dois dias depois da final da Copa do Mundo de 1998. Na decisão, fomos atropelados pelos donos da casa. Trabalhamos exaustivamente naquela cobertura jornalística. No feriado de 14 de julho (dia que marca a Queda da Bastilha e o fim da monarquia absolutista em 1789), fomos a um bistrô refletir e discutir sobre a derrota de nossa seleção. Um debochado garçom descobriu que éramos brasileiros e toda vez que passava próximo à mesa, dizia: “Trois à zéro”. Fez isso várias vezes. Antônio não aguentou. Bufava e respondia bilíngue, em Francês e Português: “Nós somos tetra, nós temos quatro. Vocês só têm um”. Falava e bufava. Fomos expulsos do restaurante para que ali não ocorresse uma tragédia.

Em maio de 2002, depois de longa andança pela cidade, fui jantar com Bebê L., C. e Antônio. Ao chegar percebi que o clima não era de extrema leveza. Uma discussão mais exaltada estava no ar. O pobre conhecimento da língua francesa não me ajudava. Podia ser coisa séria. Pensei em ir embora. Não permitiram. Fiquei e descobri o motivo insignificante da polêmica: um me achava parecido com Zinedine Zidane, o carrasco do Brasil; o outro dizia que era mais parecido com o craque português Luís Figo. A discussão estava posta sobre a mesa. Ele estava apoplético. Mostrava-se nervoso demais. Era um outro Antônio. O vaso havia se quebrado. Nos olhamos, Bebê L. e Tonton César, pegamos nossos apetrechos de cavaleiros, nossos cavalos e fomos nos divertir.

A vida é cruel. “A vida é capaz de criar uma tempestade que muda para sempre as pessoas”, como diz Milton, outro amigo em comum. Antônio mudou. Deixou de ser um polemista divertido para transformar-se num debatedor iráscivel, raivoso, furioso, sem humor. Se isolou. Nos perdemos.

C. continua uma mulher lindíssima, educadíssima e elegante. Bebê L. é agora um homem feito. O Antônio partiu alguns dias atrás. Sinto saudade daqueles tempos em Paris. Sinto saudade daquele apartamento, de minha família francesa. Sinto muita saudade de meu “Irmão Parisiense”. Sinto saudade de tudo.

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