A alma sente. A cabeça pesa. O sono falta. O corpo avisa. A estafa vem. Hora de cuidar do conjunto da obra. Ler mais, rir mais, namorar mais, buscar o prazer, a arte do não-sofrer com pequenezas, lembrar antigas e sonhar futuras viagens. Hora de procurar o ombro dos amigos, da família. Hora de se alimentar melhor, mais ginástica, mais caminhadas, mais encantamento com o nascer e o pôr do sol, o balanço do mar. Hora de ouvir boa musica. E aqui aparece o quarto disco da banda brasiliense Legião Urbana, “As quatro estações”.

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Era outubro de 1989, quase 30 anos atrás. Para recordar, “As quatro estações” foi lançado um ano após a promulgação da nova Constituição brasileira. E no mesmo 1989 da queda do Muro de Berlim e da primeira eleição direta para presidente no Brasil, depois de anos de obscurantismo. O Brasil pegava fogo com a disputa entre Collor e Lula. O mundo pegava fogo com o colapso do comunismo no Leste da Europa.

Com 11 músicas, “As quatro estações” é um disco comovente. Muita gente vai lembrar de versos de “Pais e filhos”:

“É preciso amar as pessoas

Como se não houvesse amanhã

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Porque se você parar pra pensar

Na verdade não há.” 

Outros vão preferir a beleza de “Há tempos”: 

“Disciplina é liberdade

Compaixão é fortaleza

Ter bondade é ter coragem

Lá em casa tem um poço

Mas a água é muito limpa.”

Poesia, sonhos e inocência juvenis, descobertas, amores e desamores, contestação. “Maurício”, “Monte Castelo”, “Meninos e meninas”, “Eu era um lobisomem juvenil”, “Quando o sol bater na janela do seu quarto”… 

E tem também “1965 (duas tribos)”. É a música mais política do disco, faz claras referências à ditadura militar então recém-terminada. Parece que foi composta no café da manhã, hoje cedo, por Renato Russo & Cia. Faz refletir sobre estranhos tempos modernos: 

“Quando querem transformar

Dignidade em doença.

Quando querem transformar

Inteligência em traição.

Quando querem transformar

Estupidez em recompensa.

Quando querem transformar

Esperança em maldição.”

E termina dizendo que “O Brasil é o país do futuro”.

Era 1989. Trinta anos atrás. Em tempos de pagode, funk e sertanejo de letras pobres e mau gosto profundo, “As quatro estações” permanece um disco poderoso e lindo. E o Brasil segue sendo o país do futuro.

Olhos novos

Para não parar de falar em beleza, segue o escritor francês Marcel Proust: “A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.” 

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Obrigações

Trecho de editorial do jornal espanhol “El País”, que decidiu esta semana publicar as mensagens da Lava Jato vazadas ao “The Intercept”: “Os jornais têm muitas obrigações em uma sociedade democrática: responsabilidade, confiabilidade, equilíbrio e compromisso ante os cidadãos. Não está entre elas proteger os agentes públicos e os poderosos de revelações embaraçosas.”

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