Sempre gostei de dirigir. Tenso no trabalho, denso nas relações pessoais, o carro se transformava num oásis. Ar-condicionado ligado, música rolando, nada me tirava do sério. Os bandalheiros, os apressadinhos, os barbeiros, os nervosinhos de plantão, nada me roubava a paz. Fui morar fora, andava de metrô o tempo todo e nunca mais segurei um volante. Lá se vão quase 20 anos. Devo confessar: nesses tempos de animosidade e ódio, não sinto saudade alguma.

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A impaciência vem se transformando em algo chocante. Uma pequena fila no caixa do supermercado, por exemplo, torna-se motivo para maldizer e execrar a existência humana no planeta terra. O trânsito engarrafado, então, parece despertar nos homens os mais primitivos instintos. Buzinaço, ofensas, xingamentos, pancadaria, tiros, mortes. Tem sido assim no Brasil inteiro. Santa Catarina não é exceção nesse macabro roteiro.

Dizem que é reflexo da falta da educação dos brasileiros. Dizem que é retrato de um país dividido, polarizado, rachado. Dizem que ninguém respeita as leis feitas para disciplinar o trânsito. Tudo muito simplista, tudo muito verdadeiro. A pressa, a imprudência, a ansiedade, a irritação, o estresse e o instinto violento de alguns não asseguram consentimento para se passar por cima das normas de uma sociedade minimamente organizada.

Corria um domingo tranquilo na vizinha Porto Alegre. Até que ocorreu um leve acidente na Zona Sul da capital gaúcha. Os pequenos danos na caminhonete levaram o motorista a sacar uma arma e matar pai, mãe e filho que estavam no outro carro. Com tiros na cabeça. Como explicar um triplo assassinato por motivo tão fútil? O que justifica tanta estupidez? O delegado que cuida do casso afirmou: “Não eram danos relevantes que causassem qualquer prejuízo patrimonial maior que R$ 500, R$ 600, R$ 700. Um martelinho de ouro resolvia. E aí, tivemos três integrantes da mesma família mortos numa discussão de trânsito”. O horror, o horror.

Talvez estejamos em um caminho sem volta para a ignorância. Talvez estejamos vivendo à beira da barbárie. Mas ainda há esperança e gente de bem por aí.

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Um dos maiores atletas da história do esporte mundial, Kobe Bryant um dia disse: “Seja sempre a melhor versão do que você é”. Isso exige civilidade, respeito, cidadania, amor ao próximo, aceitação, resiliência, tolerância, gentileza, educação – valores que não se compram na padaria ou na oficina mais próxima de nossas casas.

(Foto: David McNew / AFP)
Seja sempre a melhor versão do que você é Kobe Bryant, astro do basquete que morreu na semana passada

 O novo populismo

Leitura importante para os tempos modernos: “Os engenheiros do caos – como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”. O enorme subtítulo do autor Giuliano da Empoli resume o livro, em que ele analisa o que aconteceu recentemente nos Estados Unidos, Itália, Hungria e também no Brasil.

– Por trás das aparências extremadas do carnaval populista, esconde-se o trabalho feroz de dezenas de spin doctors, ideólogos e, cada vez mais, cientistas especializados em big data, sem os quais os líderes do novo populismo jamais teriam chegado ao poder – escreve Giuliano.

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A ameaça americana

Outro bom livro que ajuda a entender tempos em que se atira no mensageiro e se ignora a mensagem: “Um gênio muito estável – a ameaça de Donald Trump à democracia”, dos repórteres do Washington Post Philip Rucker e Carol Leonnig.

Tempos de cólera

No mundo da música pop tudo é muito velho e repetitivo. Cria-se pouco, copia-se muito. Raridade encontrar algo inovador como “There is no year”, disco da Algiers, banda de Atlanta (EUA). Pesado, crítico, eletrizante e imprevisível, também ajuda a entender os tempos de cólera em que vivemos.

O tom da prosa

Do compositor e cantor Criolo, em entrevista à rede britânica BBC: “Existe um processo de desvalorização da escola pública e desvalorização de cada componente que trabalha com educação, arte e cultura, que começa por diminuição de salário, ridicularização de posição social, porque é assim que se conversa aqui”.

Preço da omissão

De Petra Costa, diretora de “Democracia em vertigem”, que disputará o Oscar de Documentário:

“A história do nazismo mostra que as elites que se calaram diante do avanço do autoritarismo acabaram sendo engolidas por ele. A extinção é o preço da omissão”.

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