Queria escrever sobre a primeira foto que vi de meu bisavô, nascido em Aveiro (Portugal), pai do pai de meu pai, três Augustos. Chorei um dia inteiro por conta desse inesperado encontro. Queria falar sobre a saudade de meu pai, de como gostaria de ter sido um pai melhor para Marina, de como minha mãe foi mais do que uma mãe para mim e minhas irmãs.

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Queria debater sobre os remédios para matar piolho e evitar dor de barriga. Discutir mais profundamente (sem trocadilho, por favor) o tratamento moderno e revolucionário com ozônio. Queria contar sobre meus planos de viagens para o futuro. Tóquio, Atacama, Riga, Islândia (de novo), Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba, Salvador.

> O amor ao redor

Queria dividir a ideia de morar numa casa de campo, montar um bonito escritório, escrever livros, cuidar de plantas e, ao mesmo tempo, paradoxo total, a vontade de fugir para Lisboa, Nova York, Barcelona. Queria anunciar o desejo de abrir uma pequena livraria, um pequeno sebo, onde poderia vender meus livros e tomar um café com os amigos-leitores.

Queria espalhar o sonho de viver dentro de um cinema e poder ver todos os filmes possíveis, de todas as partes do mundo – até mesmo aqueles que disputam o prestigioso Guaxinim de Ouro da Lapônia.

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Queria resenhar com amigos a volta do Brasileirão, quem são os favoritos, apostar no campeão, como está o meu Botafogo, será que vamos sofrer muito? Queria falar da saudade que sinto de meus amigos. Queria contar mais sobre as peripécias da Maggie e o embate interno pela adoção de um cachorro, mas será que seria um bom “pai”?

> O afeto é revolucionário

Queria devanear sobre como será a vida depois que tudo isso passar – e vai passar? Sei lá, mil coisas… Queria teorizar sobre a importância do jornalismo profissional, ético e independente neste momento – e também sobre o orgulho cada vez maior pela profissão que escolhi e agarrei.

Queria dar mais dicas de filmes, livros, séries, discos, lives. Contar como é bonito “A imensidão íntima dos carneiros”, livro de Marcelo Maluf”; como é espetacular “Uma vida oculta”, filme de Terrence Malick; e como é gostoso reencontrar “Traduzir-se”, disco lançado em 1981 por Raimundo Fagner.

Queria ter mais coragem para teorizar sobre os meus medos – cada vez maiores. Deve ser da idade. Queria homenagear Zelinha Seabra. Prima distante, ela perdeu a batalha para o coronavírus. Queria abrir meu coração sobre o orgulho que sinto de meus irmãos Catia, Sandra e Guto. Queria abraçá-los.

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> E daí?

Queria revelar todo o meu amor pela Cíntia e como ela me faz feliz. Queria falar sobre um monte de coisas boas. Assuntos não faltam. Me bateu bloqueio. Talvez provocado pelas cem mil mortes. Talvez estimulado por propostas estúpidas para combater a doença. Talvez pela ignorância da população. Ou pela omissão e desorganização das autoridades federais, estaduais e municipais. Talvez causado pelo ódio que toma conta do país. Talvez motivado pelo asqueroso tribunal da política do cancelamento. Talvez fomentado pela soma de tudo isso. Me bateu bloqueio.

De John Lewis, líder americano na defesa dos direitos civis, em texto publicado antes de sua morte, dia 17 de julho: “Caminhem com o vento, irmãos e irmãs, e deixem o espírito da paz e o poder do amor eterno serem seus guias”.

> Escola de vida

Do youtuber Felipe Neto: “A gente está vivendo hoje no Brasil um momento de validação do negacionismo, a validação do obscurantismo, a validação de pessoas e ideias que sempre ficaram no esgoto da opinião pública”.

De João Pereira Coutinho, escritor e doutor em ciência política: “As redes sociais não são tribunais nem atuam de acordo com a lei; são hordas anônimas que destroem à margem da lei, sem garantir ao acusado nenhum direito de defesa. A ‘cultura do cancelamento’ está mais próxima do fascismo do que da democracia”.

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