Uma reportagem especial exibida no Fantástico de 1º de março mexeu com o país. Com ela o médico Drauzio Varella mostrou a difícil vida que detentas transgênero e travestis têm em presídios masculinos de São Paulo. Escutou de uma delas, perto de ganhar a liberdade, que certamente seria mais livre dentro da cadeia do que nas ruas. Chorei. De outra ouviu que não recebia visitas havia oito anos. Drauzio então levantou-se e deu um abraço nela. Humanismo, solidariedade, generosidade, respeito às diferenças, amor profundo ao próximo. Desabei em choro.
Continua depois da publicidade
Doutor Drauzio é um clássico homem renascentista. Um sujeito raro. Em dias de exacerbado egocentrismo e pouca preocupação com quem está ao nosso lado, ele nos mostra que a ordinária vida que levamos pode ser muito mais interessante e, acima de tudo, útil.
Médico oncologista, 76 anos, Drauzio faz trabalhos voluntários em presídios há muitas décadas. Tudo está muito bem contado em livros como “Estação Carandiru” e “Carcereiros”. Na manhã de 2 de outubro de 1992, por exemplo, ele estava cuidando de presos infectados com o HIV no Carandiru. Mais tarde, naquele mesmo dia, 111 detentos foram massacrados e mortos por policiais militares de São Paulo.
Humilde, gentil, aparência frágil e caráter forte, Drauzio disse certa vez: “Os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam”. Pela reportagem mais recente do Fantástico, tudo segue igual para este ser humano fora de seu tempo.
Após a comoção nas redes sociais, a Secretaria de Administração Penitenciária de SP divulgou o endereço para que Suzy Oliveira receba cartas. Suzy é a detenta que não tem visitas há tanto tempo. Aos interessados, segue o endereço: Penitenciária I José Parada Neto – Rua Benedito Climérico de Santana, 600, Várzea do Palácio, CEP 07034-080, Guarulhos-SP.
Continua depois da publicidade
Também surgiu uma corrente pedindo Drauzio Varela para a presidência da República em 2022. Não contem com meu apoio. Deixemos o homem onde ele está – em paz, fazendo o que faz tão intensamente bem: propagando o humanismo, dando aula de civilidade, nos ensinando a amar o próximo. A gente precisa de muito mais Drauzios em nossas vidas.
O preço do sucesso
De A. G. Sulzberger, publisher do The New York Times, explicando um pouco o sucesso do jornal americano em duros tempos para o jornalismo profissional: “Vendemos tudo o que podíamos vender na empresa para manter nosso investimento em jornalismo tão constante quanto era humanamente possível”.
O preço do desastre
“Havia um consenso em relação ao nível de conforto da organização em seguir adiante”. Foi com esta simplista frase que um executivo da NBC explicou por que aquela TV americana engavetou as denúncias de má conduta sexual do produtor de cinema Harvey Weinstein. Deu no desastre que deu.
O preço da uberização
Em tempos de empregos sob demanda da era digital e de Brexit, o cineasta britânico Ken Loach oferece uma pérola dura e triste. “Você Não Estava Aqui” é um dos melhores filmes em cartaz nos cinemas. Vá e veja.
Continua depois da publicidade
Excelente trabalho
Irrepreensível, até agora, o trabalho do Ministério da Saúde na prevenção e no combate ao coronavírus. Didático, sem alarmismos, organizado, com informações precisas. Impecável.
Pedido de desculpas
A exemplo do que fez o médico Drauzio Varella, também peço desculpas aos leitores e sobretudo à família do menino assassinado pela transexual Suzy. A reportagem, exibida no programa Fantástico, tratava das condições de vida das trans na prisão, mas não citava seus crimes. Suzy, revelou-se depois, cometeu um crime que choca todo o mundo – estupro e homicídio de menor de 14 anos com uso de meio cruel e impossibilidade para fuga.
Também reforço minha admiração pelo trabalho humanista do doutor Drauzio Varella.