Muitos meses atrás, em tempos sem pandemia, passeava com Maggie quando tropecei na frase estampada na parede: “O afeto é revolucionário”. É o tipo de mensagem que não sai da cabeça – assim como “Gentileza gera gentileza”, desenhada sob viadutos do Rio de Janeiro nos anos 1970-1980 do século passado. Afeto, gentileza, amabilidade, delicadeza, elegância, civilidade, simpatia, polidez, educação, são todos valores raros de se encontrar agora neste país.
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Com a pandemia da Covid-19 saíram da penumbra a idiotia, a irresponsabilidade, a falta de empatia, a fúria insana, a abjeta política do cancelamento, todos os tipos e níveis de preconceitos. O Brasil transformou-se num lugar de burrice e maldade, onde não se produz discussão sem raiva, onde não se constrói diálogos sem ataques à honra. O horror.
Semana passada escrevi aqui sobre a estupidez humana. Ela vem em ignorância, em obscurantismo, em grosseria. Vem em xingamentos, difamação, ameaças. Escondido atrás de uma conta falsa, um elemento me escreveu as frases a seguir: “Estou na torcida para que você morra do seu querido vírus. Canalhas como você têm que morrer sofrendo da pior forma”. Trata-se de um adepto covarde do Fla-Flu do ódio.
Neste momento ninguém é contra futebol, cinema, praia, churrasco, sambinha e cervejinha, abraço nos amigos, reencontro com pais e avós. É hora de estar a favor e valorizar a vida, ser mais racional, acreditar na ciência.
“Quando a inteligência e a bondade ou afeto são usados em conjunto, todos os atos humanos passam a ser construtivos”, disse o Dalai Lama.
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Infelizmente não é bem isso o que acontece na grande pátria desimportante. Um jovem cidadão de Criciúma, por exemplo, tentou conquistar o direito legal de não usar máscara. O ato, por si só, é carregado de individualismo, arrogância, prepotência – e nem leva em conta que a Justiça deve ter coisas muito mais importantes para decidir. O pito do juiz Pedro Aujor Furtado Junior veio em tamanho adequado: lembrou que a máscara é fundamental no combate à doença, para proteger quem usa e quem está por perto, e argumentou que seria possível dispensar o garotão somente se ele fosse o último habitante do planeta. Perfeito.
Querem outro exemplo do que vivemos? Terça-feira passada (28/7) morreu um jovem apresentador esportivo, vítima de complicações provocadas pela Covid-19. Rodrigo Rodrigues tinha 45 anos, muito talento e uma rara leveza para tempos de cólera. Mas, nas redes antissociais, pôde-se ver gente debochando e comemorando a morte. Onde a desumanização vai parar?
São 90 mil mortes em todo o Brasil. São mais de mil vidas perdidas em Santa Catarina. É hora de reverenciar a memória de quem se foi. É hora de dedicar respeito às famílias que perderam pais, mães, avós, filhos, amigos. É hora de amor. Gentileza gera gentileza. E o afeto é revolucionário.
Do cantor maranhense Zeca Baleiro: “A saudade ainda vai bater no teto/Até um canalha precisa de afeto/Dor não cura com penicilina”.
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Do escritor argentino Alberto Manguel: “A crença banal de que o tempo cura as feridas é um engano: nós nos acostumamos a elas, o que não é a mesma coisa”.
Do sempre grandioso Shakespeare: “Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez”.