Tenho 62 anos. Nasci um ano antes do bicampeonato mundial de futebol, conquistado no Chile. Depois vi os títulos de 1970, 1994 e 2002 e também derrotas amargas, como a de 1982 (aquele timaço) e a de 2014 (aquela vergonha). Desde a eliminação para a Croácia, em dezembro na Copa do Catar, a seleção está sem técnico. Aliás, agora tem – um interino, enquanto se espera por um italiano (que dizem que vem, mas ninguém tem certeza alguma se virá mesmo). Uma bagunça sem tamanho, na encenação comandada pela CBF.
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A ideia é trazer Carlos Ancelotti, técnico extremamente vencedor hoje à frente do Real Madrid. O problema: é necessário esperar o fim do contrato dele com o clube espanhol, em meados de 2024. Então, para não deixar a única seleção pentacampeã do mundo no vácuo, dá-se o famoso jeitinho tupiniquim: o competente Fernando Diniz é convidado para tapar o buraco, sem precisar sair do Fluminense.
Neste teatro de comédia me vêm as perguntas: quem vai servir de “bico”, quem vai ficar em segundo plano, o clube carioca ou a seleção? E os possíveis conflitos de interesse nas convocações? Diniz e Ancelotti têm estilos parecidos? E se Diniz der certo, ele seguirá com Ancelotti caso o italiano venha mesmo viver no Brasil?
Os comentaristas do mundo boleiro têm muitas outras pertinentes e inquietantes questões. Com preguiça, paro por aqui. Mas nunca vi a Seleção Brasileira tão abandonada, desamparada, desprezada, maltratada, espezinhada, desacreditada, enxovalhada, degradada, difamada, humilhada, diminuída, perdida.
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César Seabra: A crítica da crítica da crítica
Na mesma semana, bandidos de uma facção que torce para o Corinthians invadiram um motel, em São Paulo, para bater num jogador de futebol. A violência contra o atleta foi comemorada pelos criminosos, historicamente bancados por dirigentes de clubes. Um dia a conta chega alta, espinhosa, irreversível, fatal, num fiel retrato da barbárie que nos acostumamos a ver diariamente no país.
A vítima foi Luan, que ganha uma fortuna e não joga nada há bastante tempo. Abandonado pelo presidente do clube e pelos técnicos que passam pelo Corinthians, Luan não é afeito aos treinamentos. Acomodado, jamais se dedicou para tentar mudar a deplorável situação. Mas como diz o poeta, “uma coisa é uma coisa e vice-versa”.
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Nada se resolve na porrada. “A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”, afirmava o filósofo francês Jean-Paul Sartre. “A única obscenidade que conheço é a violência”, dizia o poeta Jim Morrison.
A nota covarde do Corinthians, de repúdio ao ataque, e a vacilante solidariedade dos companheiros de profissão são facilmente explicáveis. Todos temem esses canalhas travestidos de torcedores. Eles invadem treinos, arrombam vestiários, fazem ameaças a famílias dos jogadores pelas redes sociais, jogam morteiros para dentro dos campos.
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Na Inglaterra, o combate aos hooligans e o fim da violência nos estádios viraram assuntos de Estado. Eles venceram com investimento, inteligência das forças de segurança e punições severas. Hoje todo jogador de futebol sonha com o Manchester City, o Chelsea, o Arsenal, o Manchester United, o Liverpool, o Newcastle.
Por aqui, temos apenas a inércia e a impunidade. Está demorando, mas um dia a conta chega. Lamentavelmente.
Para refletir:
“Não existem guerras justas. Toda violência é um colapso da inteligência. Todos os conflitos armados representam um triunfo da maldade. Enquanto sustentarmos exércitos não poderemos considerar-nos uma espécie inteligente”
José Eduardp Agualusa, escritor angolano
“O tempo ensina sempre. Mas é necessário tempo para aprender com o tempo”
Mohamed Mbougar Sarr, escritor senegalês
“Amar uma cidade sempre traz uma contrapartida de sofrimento: vemos as ruas amadas mudarem de feições, as harmonias antigas se subverterem, e em geral o novo é mais feio e jamais se compara ao passado”
Italo Calvino, escritor italianoContinua depois da publicidade
“Um dia li um livro e toda minha vida mudou”
Orhan Pamuk, escritor turco
“O mundo é guiado pelo acaso. A contingência nos persegue todos os dias de nossas vidas, e essas vidas podem ser tiradas de nós a qualquer momento”
Paul Auster, escritor americano
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