Desde 9 de maio passado vivo uma sensação estranha: a de ser cidadão português e europeu. Nascer de novo não deve ser fácil para ninguém. Fico me perguntando o sentido da existência, como será o futuro, haverá água, comida, vida, mundo, luz no fim do túnel, sei lá, mil coisas. É no mínimo curioso ganhar uma segunda nacionalidade aos 63 anos.
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Vamos à história. Sou neto de português. Uma tremenda coincidência: Seu Manuel e eu nascemos em 17 de março. Eu, no Rio de Janeiro, em 1961. Ele, o pai de minha mãe, em Ovar, distrito de Aveiro, no ano de 1918. Não conheço a cidade de meu avô. É uma promessa e um sonho visitá-la.
Pequeno município da região central de Portugal, Ovar tem cerca de 55 mil habitantes. De acordo com os agentes turísticos, possui paisagens deslumbrantes, como o Parque Ambiental de Buçaquinho, assim como praias deliciosas – destaque para a do Furadouro. A atmosfera tranquila de Ovar se transforma no verão, com a invasão dos turistas ingleses e alemães. E quando chega o carnaval, na mesma data do nosso – só que lá em pleno inverno.
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No departamento de curiosidades, Ovar é uma cidade conhecida por seus azulejos e pelo pão-de-ló. E a mais famosa personalidade ovarense é Santa Camarão, considerado o maior boxeador português de todos os tempos.
Ser português me impôs um desafio futebolístico. Para que time torcer lá? Depois de longa pesquisa, fechei com o Sporting de Lisboa. Por uma razão simples: o time verde-e-branco foi campeão nacional da temporada 1961-1962, ano em que nasci no Brasil; e também em 2023-2024, quando nasci em Portugal. Assim como o Botafogo é líder do atual Brasileirão, os Leões do Sporting estão na frente do Portuguesão, com seu craque sueco Gyökeres, de 26 anos.
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Amigos perguntam se me sinto animado para a possível aventura de viver no exterior. Digo honestamente que não. Vou seguindo por esse país maltratado chamado Brasil. Não me agrada a sensação de ser estrangeiro, já passei por essa experiência. E é o que somos nesses casos, estrangeiros.
Assim como em vários países europeus, a violência de grupos ultranacionalistas, anti-imigração e racistas chegou às ruas de Portugal. O aumento dos ataques coincide com a ascensão do Chega, partido de extrema-direita. Para se ter uma ideia, entre 2017 e 2021 as denúncias de xenofobia contra brasileiros cresceram 505%, de acordo com a Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial de Portugal.
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Para entender melhor a Europa, Portugal e esta complexa rede de racismo, ódio e intolerância, me debruço em Rui Tavares, historiador e deputado português, autor do belíssimo livro “Agora, Agora e Mais Agora”. “A democracia não se defende passivamente, e não podemos ficar de braços cruzados”, disse ele em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”.
No mundo da literatura, posso me orgulhar de ser conterrâneo de José Saramago, Inês Pedrosa, Lídia Jorge, João Tordo, José Luis Peixoto, Valter Hugo Mãe, Filipa Martins, Afonso Cruz, Miguel Souza Tavares e tantos outros maravilhosos escritores. E, claro, de Fernando Pessoa, com quem encerro esta coluna portuguesa, com certeza:
“Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui”
Semeador do caos
Esfacelado e humilhado, o Partido Democrata vai entregar, em janeiro, as chaves da Casa Branca de volta a Donald Trump. Sobre isso, a análise de David Brooks, colunista do jornal “New York Times”, é devastadora: “Trump é um semeador de caos, não de fascismo. Nos próximos anos, uma praga de desordem descerá sobre a América”.
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Até que enfim
Depois de manos, felipões, tites e outros mais, eis que surge Filipe Luís, catarinense de Jaraguá do Sul. Em pouco tempo, logo depois de se aposentar dos campos, já faz sucesso comandando o time do Flamengo. Demorou, mas parece que temos um novo técnico de futebol em nosso país.
“Minhas certezas se alimentam de dúvidas. E há dias em que me sinto estrangeiro em Montevidéu como seria em qualquer lugar do mundo. E, nestes dias, dias sem sol, noites sem lua, nenhum lugar é meu lugar… e não consigo me reconhecer em nada nem em ninguém”. Eduardo Galeano, escritor uruguaio