Numa entrevista à TV Cultura, o escritor Itamar Vieira Junior, autor do premiado e belo “Torto Arado”, foi incisivo sobre os dias de hoje: “Não há mais tempo para a conciliação de interesses”. Faz todo o sentido quando vemos as nossas aberrações cotidianas e em que, passo a passo, vem se transformando o Brasil.
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O Brasil é um país cansativo. Cansa a alma, a mente, o físico, o emocional, o intelectual. Cansa as pernas, o coração. Machuca a esperança, fere o otimismo. Transforma num enorme desafio a luta para se manter a sanidade. O Brasil é extenuante. A cada dia se supera em desmandos, desrespeitos, confusões, crueldades, imbecilidades. O caos do processo da vacinação não nos permite mentir. O Brasil é um hospício de fazer qualquer maluco perder o juízo.
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Portanto, não há mais tempo para a conciliação de interesses com celerados que provocam e atacam a democracia, suas instituições, seus valores mais essenciais.
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Não há mais tempo para a conciliação de interesses com desatinados que defendem AI-5, ditadura, repressão, tortura, assassinatos. Não há mais tempo para a conciliação de interesses com gente negacionista, terraplanista, antivacina, que acha que aquecimento global é retórica sem um pingo de fundamento.
Não há mais tempo para a conciliação de interesses com quem ataca a ciência e afirma que a Covid-19 é apenas uma gripezinha para frouxos-gayzistas-esquerdistas. Não há mais tempo para a conciliação de interesses com gente que faz discurso odioso e prega o aniquilamento de adversários políticos.
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(Que fique bem claro: a defesa da liberdade de expressão é incontestável e para ser plural de verdade é preciso dar voz a diferentes posições – sobretudo àquelas com as quais não se concorda. Mas a defesa da liberdade de expressão não pode normatizar a voz de racistas, nazistas, xenófobos, homofóbicos, misóginos, pedófilos, defensores de feminicídio, dando amparo a causas indefensáveis.)
Não há mais tempo para a conciliação de interesses com quem fura a fila da vacinação, deixando para trás grupos que precisam ser realmente imunizados. Não há mais tempo para a conciliação de interesses com bandidos que aplicam em idosos a “vacina do vento”. Não há mais tempo para a conciliação de interesses com quem organiza esta zona em que se transformou a vacinação no Brasil. Eles precisam ser responsabilizados e pagar por tanta incompetência.
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Não há mais tempo para a conciliação de interesses com quem despreza a educação, a cultura, as escolas, os livros, os professores. Não há mais tempo para a conciliação de interesses com quem dissemina campanhas de desinformação e notícias falsas com a nefasta ideia de impor medo e terror. Não há mais tempo para a conciliação de interesses com quem covardemente ataca a honra de outras pessoas nas redes antissociais.
Não há mais tempo para a conciliação de interesses com cantores, artistas e afins que causam aglomeração quando deveriam dar exemplo de civilidade e cidadania. Não há mais tempo para a conciliação de interesses com quem despreza o nosso bem mais sagrado: a vida.
Para refletir:
Do artista plástico José Roberto Aguilar:
Os destinos transformam-se sempre. Depende de você. Do seu livre-arbítrio – como tudo na vida. Se você os dinamizar, eles se tornam mais brilhantes. A passividade os torna mais foscos e quebradicos.
Da cantora Maria Bethânia em entrevista ao jornal espanhol “El País”:
Não gosto mais de falar do Brasil. Tenho vontade de chorar
Do ator Matheus Nachtergaele em entrevista à “Folha de S.Paulo”:
Vai ser preciso amar muito o Brasil para poder amá-lo daqui para a frente. Não deixa de ser bonito o desafio que se coloca.
Do guitarrista americano John Frusciante:
A música deve ser uma expressão de liberdade, e não uma expressão do fascismo.
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