Não vi Pelé jogar ao vivo num estádio. Ou melhor, vi mas não lembro. Eram os anos 60 do século passado. Meu pai me levou ao Maracanã para ver Santos x Botafogo. Não lembro de nada, para a fúria do Seu Augusto, que até hoje não perdoa minha frágil memória.
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Lembro, sim, da Copa de 1970, no México, pela televisão. Aquele timaço comandado por ele, rumo à conquista do tri mundial. Quanta arte e beleza.
Muitos anos depois, em 1995, conheci Pelé pessoalmente.
Ele era ministro dos Esportes de Fernando Henrique Cardoso. Eu, editor de Esportes do jornal O Globo. Naquele ano, organizamos um evento sobre legislação esportiva. Convidamos o ministro Pelé para fechar o encontro.
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Ele topou, para nossa surpresa. Chegou sorridente, cumprimentava todo o mundo. No evento, cercado por assessores, falou timidamente, mostrava-se desconfortável com a aridez do assunto. Foram duas horas chatas.
Então tomei coragem e levantei a bola. Provoquei a fera. Perguntei ao craque Pelé quem, depois dele, seria o maior jogador do mundo. Ele sorriu, tirou o paletó, afrouxou o nó da gravata e respondeu: “Zizinho”, de voleio, sem pestanejar, rápido como se estivesse na área adversária.
A partir daquele momento o menino Pelé tomou conta do ambiente, que exalava alegria. Foram mais três horas de histórias, risadas, ensinamentos, contentamento, sonhos, gargalhadas, deslumbramento, encantamento. Depois, fotos e mais fotos. Inesquecível.
Minha fotografia estava enquadrada, muito bem guardada num canto de casa. Vinte anos depois, pedi a um amigo ligado a Pelé que levasse a foto para ser autografada, na parte de trás, para não estragar a imagem.
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Um belo dia o amigo retorna com a foto. Assinada na parte da frente. Zanguei:
— Poxa, não pedi para assinar atrás?
O amigo respondeu, envergonhado:
— Eu disse a ele…
— E por que ele fez diferente? — perguntei.
— Pois é, ele te mandou um recado: “Diga ao César que o Rei sou eu!”.
Inesquecível.
Muito obrigado, Edson Arantes do Nascimento.
Muito obrigado, Pelé.
Muito obrigado, meu eterno Rei.
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